Tiago, pediste-me que tirasse apontamentos, se fosse à palestra com a psicóloga Madalena Alarcão, na Escola Secundária Dr. Mário Sacramento, em Aveiro. Aqui te deixo um bocadinho daquilo que ouvi e algumas das minhas interpretações do que se disse, naquele serão de sexta-feira, 12 de Fevereiro, na Biblioteca da escola, que foi pequena para acolher pais e professores daquela e de outras escolas.
1. Diariamente, escolhemos determinada peça de roupa, optamos por um prato de comida e seguimos por um caminho, sem nos questionarmos, na maior parte das vezes, sobre o que nos levou a tal opção. E ainda bem que assim é. Imagine-se que todos os dias tínhamos de parar para explicar, a nós mesmos e aos outros, as razões das nossas escolhas ordinariamente quotidianas. No entanto, há momentos e espaços em que aprendemos a pensar tais opções, de forma mais ou menos explícita. O primeiro e o privilegiado é a família, o segundo, e também de grande relevância, é a escola. Não podemos, todavia, esquecer a importância que assumem os grupos em que nos movemos, que podem também questionar e ajudar-nos a reflectir sobre as nossas atitudes.
2. Família e escola devem olhar-se como parceiras que cooperam na educação do filho-aluno, apesar de muitas vezes se gerarem alianças duns contra os outros. O filho-aluno que estabelece a ligação entre as duas estruturas movimenta-se em duas casas, a primeira, que deve preparar para a autonomia, ocupa-se talvez mais dos afectos do que das cognições, ao passo que a escola deve promover o desenvolvimento cognitivo, contribuindo para o conhecimento, cultivando e ajudando o aluno a descobrir o prazer de pensar, desenvolvendo competências e estratégias para lidar com as dificuldades. É evidente que a escola é ainda o espaço privilegiado para o alargamento das relações sociais.
3. Ao considerarmos que certo aluno tem aquele comportamento como consequência do seu ambiente familiar e socioeconómico, ou por causa do bairro onde vive ou da turma de que faz parte, exportando as causas para fora do ambiente em que nos movemos (seja a família, seja a escola), não resolvemos os problemas. Devemos eliminar os estigmas, que muitas vezes pomos sobre nós próprios e sobre os outros. É preciso encontrar dentro da escola, por exemplo, as soluções para o problema de comportamento do aluno e pedir a colaboração aos pais: “Nós, escola, tomámos estas medidas, por favor colaborem connosco.” Regras simples relacionadas com a pontualidade, o material de trabalho, a limpeza da escola, e outras relativas ao empe-nhamento e ao cumprimento do horário de estudo.
4. Aprender a pensar passa, por exemplo, e tão simplesmente, por atitudes tão fáceis, como a razão de uma escolha, quando se vai às compras: “Que calças queres? Estas? Está bem”. E se não houver tempo para perguntar porquê, para argumentar em favor desta ou daquela peça de roupa, quando o filho for adolescente não terá mais argumentos do que os habituais: “Todos usam este tipo de calças. É a moda e eu quero”. Ou: “Todos saem à noite e eu também quero.” Aprender a pensar e a argumentar começa cedo, por isso seria bom que, desde pequeninos, os filhos soubessem apresentar razões para as suas escolhas. O mesmo se passa com o estimular da curiosidade. Se não houver tempo para observar o que se passa à nossa volta, para contactar com a natureza, quando estudar ciências e história, quando escrever e falar, ou quando resolver problemas matemáticos, o aluno não terá ideias, não perceberá o que estuda, não será capaz de organizar o pensamento.
5. Na família e na escola, a clareza e a coerência são a base do desenvolvimento do filho-aluno e da sua relação com os adultos. Mas surgem momentos em que outros adultos colocam em situação difícil os primeiros responsáveis pela educação de uma criança: “Eu deixo o meu filho ir, deixe também o seu”; ou: “Vai toda a turma, por que é que não deixa o seu filho ir?!” Aí, o adulto interfere na educação que aquela família pretende dar ao seu filho, segundo determinados valores.
6. É importante reflectir sobre as razões que levam pais e professores a questionaram certas atitudes dos mais novos. Por exemplo, sair à noite, beber, fumar são um problema. Porquê? Seja bastante claro no estabelecimento das regras. O filho-aluno fica “chateado” com as restrições do adulto, está no seu direito, faz parte do seu crescimento. O adulto deve manter o seu papel de adulto e não ficar ele próprio aborrecido, porque está a contrariar o filho-aluno, que ficou zangado. Cada um deve cumprir o seu papel, na coerência da educação e dos valores que se pretendem transmitir aos mais novos.
