Crise política A atitude do senhor Presidente, de ora em diante, não deixará nenhum Governo dormir descansado.
Cruzam-se conceitos, fazem-se declarações, tomam-se decisões, desencadeiam-se reacções… É uma catadupa de palavras e atitudes, proveniente de todos os quadrantes, saída da boca e dos gestos de todos os órgãos de soberania… sem que ninguém, nem mesmo o garante último das instituições que suportam a democracia, dê ao cidadão comum alguns tópicos de leitura da realidade, que lhe permitam reencontrar o rumo, recuperar a serenidade e dispor-se a pensar como agir na escolha que vai ser chamado a fazer dentro de cerca dois meses.
Não sei se o senhor Presidente da República foi ou não capaz de despir a camisola partidária que enverga, apesar de lhe reconhecer uma actuação habitual de ponderação, serenidade interior, esforço de preservar os interesses superiores da Nação. A sua decisão de há quatro meses poderá ter sido uma oportunidade concedida ao Dr. Santana Lopes de honrar um programa de coligação e dar provas de que o seu jeito de surpreendente reverteria em benefício para sairmos da crise. A menos que fosse o receio de que a sua “família” não tinha a casa suficientemente arrumada a ditar a atitude que tomou.
Mas, se a maioria de hoje era a mesma de então, o que mudou para dissolver essa maioria? É que, nessas circunstâncias, gostasse ou não dela, não tinha deixado de funcionar. O que se tornou manifestamente mau foi, segundo as suas genéricas explicações, o Governo. A atitude do senhor Presidente, de ora em diante, não deixará nenhum Governo dormir descansado: sobre ele continuamente pairará, pronta a derrubá-lo, a decisão solitária da suprema autoridade da Nação; mesmo sem o demitir, porque, nesse caso, é sempre possível encontrar justificações para dissolver a Assembleia. A nossa Constituição deixa-nos sem tapete debaixo dos pés!
Frontalidade, discordância, refutação de argumentos, não são o mesmo que deselegância, porventura falta de educação. Mas podem ser! O que acontece é que nós, cidadãos, esperamos sempre dos “superiores” obreiros da Nação palavras e atitudes cordatas, reacções exemplarmente educadas, que nos estimulem a elevarmos a fidalguia dos desencontros ou mesmo combates quotidianos.
E foi um desatino pegado, aquilo a que assistimos nestes dias! Dos novos, às vezes não nos admiramos tanto. Agora de veteranos, de quem seria de contar com o enriquecimento da sabedoria, para não darem razão a quem os apelida de “brigada do reumático”, num afrontamento inqualificável?… Fala-se muito da “postura e sentido de Estado”… Antes do Estado é o respeito por si próprio e pelos outros, só possível a pessoas de vida alicerçada em valores profundos. E então as suas responsabilidades de Estado apenas refinam os bons hábitos! Quem não tem educação, pode vestir a pele de cordeiro, mas o verniz da sua postura de Estado estala depressa. E não temos evoluído muito! Como não temos tão sobejos exemplos anteriores que nos motivem!
Vamos ser surpreendidos pela positiva?
O Governo de Gestão, o senhor Primeiro Ministro em exercício e os seus colaboradores, tem agora a oportunidade de contrariar todas as más interpretações a respeito das oportunidades desperdiçadas, como também as perversões conjecturadas. De algumas tentações está livre, pelos impedimentos legais em boa hora criados – como a interdição da possibilidade das apressadas nomeações de favor. Mas sobra muito terreno para continuarem esta esteira de maus exemplos, legislando numa rota de provocação à Presidência da República, em busca de capitalizar a sua condição de vítima. Será que vamos ser surpreendidos pela positiva?
Há ainda duas coisas que me bailam no espírito. A primeira é a surpresa agradável de aparecerem movimentos cívicos, que se dizem limpos de vínculos a estratégias par-tidárias, os quais pretendem oferecer as suas propostas a quem quer que avance para a governação. Seria muito bom que, na realidade, a sociedade civil fosse capaz de interpelar, de uma vez por todas, os aparelhos, os favores, os interesses partidários.
Interesses corporativos?
A segunda questão preocupa-me bastante. Quem nos explicará, com verdade, se sim ou não são interesses corporativos, económicos, informativos ou de outra ordem, que levam presidências e governos a tomar decisões em determinada direcção? Normalmente, quem o faz não o diz!… Mas seria bom alimentarmos a esperança de que, alguma vez, os esforços de cidadania activa nos levarão a conseguir perceber e desmascarar essas teias. Na vida política, como noutras vidas do País, para tranquilidade e vida sadia de todos!
Quem sabe?… É capaz de ser uma ilusão minha! Já se perfilam novos salvadores da Pátria, com estratégias e protagonistas impolutos!… Bom: eu quero-me impor a esperança de mudança próxima! Eu quero-me dispor a ser também mais activo na construção do futuro, com os pés bem assentes no presente, sem renegar a herança do passado!
Q.S.
