“A minha principal preocupação é que os jovens são cada vez mais vistos como consumidores e não como cidadãos. Para tudo há uma proposta no mercado, muito diferente do espírito escuteiro: um estilo de vida atento aos recursos, sensível aos problemas do meio ambiente, atento à cooperação e a uma economia de serviço”, afirmou Eduardo Missoni ao jornal Público, do dia 23 de Abril (dia de S. Jorge, patrono do escutismo), numa entrevista conduzida por António Marujo.
Eduardo Missoni, médico italiano, é o secretário-geral do Movimento Escutista Mundial, ou seja, o dirigente máximo a nível mundial.
Para este dirigente, os escuteiros-mirins de Walt Disney promoveram, mas também fizeram uma caricatura do escutismo, ao transmitirem uma imagem de escuteiro “que é um pouco Rambo, que resolve todos os problemas”. Ora, afirma, “o escutismo [exercita] a relação interpessoal, o trabalho de equipa, tem uma série de valores que não são expressos nessa banda desenhada”. Eduardo Missoni concretiza a forma como o escutismo quer contribuir para um mundo melhor: “Isso não é uma acção em relação a temas específicos, antes uma compreensão de valores. Num jogo, há trabalho de equipa para promover a cooperação e não há competição; inclui-se a alegria, para ver o mundo de forma optimista, e o respeito pela natureza. Quando se cresce, começa-se a viver isso com abertura, experimentação de diferentes ambientes, de pesquisa espiritual, de temas relevantes para o crescimento. Para o escutismo não é importante passar pela experiência escuteira. Importante é ser escuteiro para toda a vida nos valores, na visão do mundo, no compromisso pessoa, social e político. É um movimento para a formação de cidadãos responsáveis”.
Interrogado sobre se se sente como um militar ao usar a farda de escuteiro, Missoni responde: “Não. O escutismo é um movimento de paz. O fundador [Baden-Powell] era general, mas teve a capacidade de mudar, transformando-se num homem de paz, capaz de integrar as pessoas que tinha combatido. O uniforme tem uma função de unidade e redução das diferenças. Se houver apenas ritual sem compreender a pedagogia, perde-se a compreensão do escutismo. Não, a farda não implica militarismo.”
