“É noite, e nenhuma ave canta”

No Coração da Memória

Armor Pires Mota

102 páginas

Conhecido principalmente pela prosa – no “Jornal da Bairrada”, no conjunto de livros que designa por “Ciclo da Guerra” (baseados em histórias e vivências do serviço militar na Guiné-Bissau)” e no “Ciclo da Terra” (monografias sobre Oiã e Oliveira do Bairro) –, Armor Pires Mota acaba de publicar “No Coração da Memória”.

Este conjunto de poemas subdivide-se em duas partes. Na primeira, “Frutos e Afectos”, sobressaem os sentidos e as sensações, a memória positiva, a fé, os “carreiros das amoras”, as “uvas tão redondas e sensuais”. “Mandem parar os ventos / o corso trágico da ruína / o som cansado do realejo // que nem uma flor seja desfolhada / no ombro da madrugada / na madrugada de um beijo”, escreve em “Desafios”, em versos que lembram “Funeral Blues”, de W.H. Auden.

Na segunda, “Cinco assoalhadas de solidão”, há noite, solidão, últimos dias, “anjos negros”. Numa palavra, ausência. “É noite, e nenhuma ave canta”, assim termina o livro. Mas antes do fim há magníficos poemas, alguns deles, supomos, a pensar na mulher Lili e nos pais Aurora e José – pessoas que já partiram e a quem é dedicado o volume. “O teu sorriso ainda mora e trova / nas janelas e cantos da casa, / no perfume da flor, na asa / e uma ânfora nova. // Mas, sem a carne da tua mão, / as manhãs não têm futuro / e o poema apodrece na boca / como o sol no muro do muro” (do poema “As coisas”).

J.P.F.