Luísa e Dário Tavares, pais de três rapazes (14, 6 e 4 anos), ela professora de Ciências Naturais, ele vice-director pedagógico do Colégio Salesiano de S. João Bosco – Mogofores, colaboram na preparação de casais para o matrimónio católico há mais de uma década. Desde o fim de Fevereiro, o casal coordena o CPM (Centro de Preparação para o Matrimónio), na diocese de Aveiro.
O que é o CPM?
Luísa Tavares (LT) – É um movimento de leigos católicos, assistidos por sacerdotes, que tem como finalidade principal a promoção de sessões de preparação de noivos para o matrimónio. Nós coordenamos a equipa diocesana, que é constituída por cinco casais.
Há uma série de equipas CPM a funcionar na diocese de Aveiro. Como equipa diocesana, estamos ainda numa fase de diagnóstico, procurando conhecer a realidade que envolve cada equipa da Diocese.
Todos os que pretendem casar passam pelo CPM?
Dário Tavares (DT) – Nem todos. Prestamos este serviço a todos os noivos que nos procurem ou nos sejam encaminhados. Existem na diocese outros tipos de preparação.
Como é ajudar a preparar o casamento?
LT – É um trabalho importante para eles e para nós. Quando, no final, lemos as avaliações feitas pelos noivos, percebemos que o CPM lhes proporciona uma reflexão que ainda não tinham feito. Quando chegam ao CPM, pensam que já abordaram todas as questões no seu namoro. Depois, apercebem-se que há uma série de assuntos, desde o número de filhos à sua educação, que nunca foram abordados. Outros nunca tinham pensado, por exemplo, nisto: “O que é que Deus tem a ver com o nosso relacionamento e casamento?” Nesse confronto de ideias, revelam-se aspectos da personalidade ou dos projectos que nunca tinham sido pensados.
Vai ganhando força a ideia de que, quando os noivos chegam à preparação, já é tarde de mais. Concordam?
DT – A preparação para o casamento passa por três etapas. A primeira é a Família. É no berço, quando, como pedia o Papa João Paulo II, a Família se torna aquilo que é, que se entende o Amor e se descobre Deus, se aprende a conhecer e a aceitar o outro como ele é, a reconhecer o seu lugar e o dos outros, a cuidar dos que mais precisam, os princípios básicos da ecologia. Ou seja, aprendemos os valores mais importantes para viver e ser Família. Depois, há a formação na adolescência e juventude.
Na Inglaterra, Tony Blair sentiu essa necessidade e criou uma quase “disciplina de CPM” na própria escola. Na nossa sociedade, é frequente pensar-se que todos temos vocação para o casamento. Portanto, não se sente a necessidade de uma preparação específica.
LT – Dedicamos tantos anos a adquirir as competências técnicas, profissionais ou académicas e considera-se excessivo passar algumas horas a reflectir e dialogar sobre a Família que queremos construir.
Apesar de alguns noivos participarem no CPM em data muito próxima do seu casamento, chegam sempre a tempo. Nenhum casal deveria dispensar esta preparação para o casamento, pois não é a formação académica ou religiosa o garante das condições para o sucesso de um matrimónio.
É verdade que nenhum casal vai deixar de casar depois de fazer o CPM? Já está tudo decidido…
LT – Não é bem assim. Tivemos casais que já nos apareceram duas vezes no CPM. Da primeira vez, não casaram. Chegaram à conclusão que algo não estava bem. E voltaram mais tarde, mas com outros noivos.
Do vosso ponto de vista, o que falha na preparação para o casamento?
DT – Passa-se com os noivos o que acontece com muitos cristãos: a falta de catequese, e, às vezes, a ignorância completa. O Pe. António Torrão costuma brincar com uma situação. Nos questionários que lançamos, alguns noivos respondem que têm todos os sacramentos. “Tenho aqui muitos colegas”, diz o Pe Torrão, pois se eles têm os sacramentos todos, têm também o da Ordem… O problema está na falta de formação cristã. Precisamos de comunidades vivas que transmitam os valores do Evangelho. Nestas comunidades, a preparação para o matrimónio é espontânea. O CPM será aí a «cereja no bolo».
LT – Por outro lado, na cultura dominante, o modelo de «família» cultivado diariamente nas telenovelas e filmes, «formadores» de sucessivas gerações, não convida à vida de família, apresentando-a como modelo desacreditado e falhado. Que jovem quererá isso para si?
O que é mais determinante, a mensagem social contra a família ou a deficiente formação cristã dos noivos?
DT – Fundamentalmente tem que ver com os valores da sociedade. A pessoa casa-se centrada em si própria. O casamento não sobrevive a isso. Se eu não estou disposto a centrar-me no outro, é difícil que o casamento funcione. Falta este crescimento. As pessoas crescem fisicamente, mas muitos, com vinte ou trinta anos, continuam infantis ao nível dos sentimentos e afectos. Quando se fala da dificuldade de viver o casamento, tem a ver com isto.
E o derrotismo atinge todos…
DT – Não diria tanto. Mesmo entre casais cristãos, a beleza do casamento parece esquecida. É verdade que é difícil morrer para si próprio, para gerar a Vida na Família. Não é fácil deixar o seu próprio projecto de vida e construir o projecto de casal. Mas os casais que o fazem e realizam na Família a sua vocação dão o testemunho de quem vive em plenitude, vivendo sempre em constante Páscoa, passando da morte à vida, antecipando o Paraíso.
Os casais procuram casamento católico sem saberem o que isso significa?
LT – Alguns sim. Sentem a pressão familiar, para que o casamento seja religioso; outros, que já vivem juntos, procuram-no para refazer a sua situação. Mas também existem casais cristãos que preparam o seu matrimónio com toda a convicção e que a vivem com profundidade e festa.
O mais lógico seria que muitos não se casassem pela Igreja…
DT – É. Claramente, é. Muitas vezes, somos confrontados com isso. Há casais a quem apetece dizer: “Este, pela Igreja, não. Não se identifica”. Às vezes, pode um querer e o outro não querer, mas muitas vezes acontece com os dois. Estão ali e ninguém sabe bem porquê.
No entanto, como quiseram casar pela Igreja, ninguém os pode impedir…
DT – Sim. Mas parece haver motivos, à partida, para excluir o casamento. Se um casal casa pela Igreja a ver «se aquilo dá ou não dá», de certeza que não vai dar. São candidatos ao divórcio. Quando começámos no CPM, há mais de uma década, dizíamos: atenção que um quarto dos que estão aqui, de acordo com as estatísticas, vai divorciar-se. Agora dizemos: Atenção que metade dos que estão aqui…
LT – E o número de casamentos está claramente a diminuir. Quando começamos neste trabalho, os grupos de preparação eram constituídos por seis equipas de treze casais de noivos cada. Agora, cada grupo tem quatro ou cinco casais…
Na preparação do CPM falam da sexualidade. E aí há uma grande diferença entre o planeamento familiar que a Igreja propõe e o que os casais seguem…
DT – Falamos muito claramente, distinguindo o planeamento familiar da contracepção. Planeamento familiar faz parte do projecto de vida do casal. Neste projecto, estão os filhos, a casa, o trabalho, toda a vida. Nele, é preciso pensar a convivência com a fertilidade. Este é o primeiro aspecto da questão, porque há uma grande confusão entre os dois conceitos. Aceita-se a contracepção como sendo planea-mento familiar – e não é.
Como procedem?
DT – Um dos temas é dedicado ao planeamento familiar. Reflectimos sobre o exercício da maternidade e paternidade responsáveis. Apresentamos os diferentes métodos de controlo da natalidade, incidindo nas vantagens e desvantagens de cada um. Pois consideramos que a decisão do casal deve ser uma opção informada.
Damos testemunho da nossa realidade de casal, da alegria em viver a sexualidade integrada no nosso projecto de vida. Partilhamos com os casais a nossa opção pelos métodos de Planeamento Familiar Naturais e como essa escolha enriqueceu a nossa vida de casal.
Mas sobre os métodos naturais paira grande desconfiança e ignorância…
LT –Em geral as pessoas não conhecem os métodos de planeamento familiar ou, quando muito, têm destes uma visão de meados do século passado, desconhecendo os progressos científicos entretanto alcançados, bem como a sua eficácia.
O contacto com os noivos termina com o CPM?
LT – Acabam as sessões, mas a relação com alguns casais novos continua. Encontramo-nos, tomamos café juntos… Por vezes, os grupos reencontram-se passado um ano. Alguns casais disponibilizam-se para participar noutros encontros como formadores de CPM e vamos tentar que o maior número possível se integre depois nos diferentes movimentos de casais que a Igreja oferece.
