“É um erro dar por adquirido que as pessoas têm fé”

O que diz… João Seabra, padre diocesano de Lisboa, ligado ao movimento Comunhão e Libertação, esteve no Centro Universitário Fé e Cultura, na noite de 14 de fevereiro, para falar de pastoral universitária e, mais do que isso, da fé no tempo presente. O cónego da sé patriarcal de Lisboa associou-se aos 25 anos do CUFC (25 de Março, 1987-2012), centro a que “modestamente, à distância”, se considera ligado. “Quase sempre, quando venho a Aveiro, é este o meu destino”, disse. O encontro foi moderado por D. António Marcelino. Ontem à noite, no mesmo ciclo de conferências, o CUFC acolheu o P.e Gonçalo Castro (CUMN – Coimbra). Ideias principais do P.e João Seabra recolhidas por Jorge Pires Ferreira.

Grande questão de hoje

A grande questão de hoje é: Como anunciar a fé, como torná-la hoje viva, nas minhas circunstâncias, como dizer hoje, com verosimilhança, as palavras de Jesus Cristo? A pretensão de Cristo, Filho de Deus, sustenta-se? A pergunta de Dostoievsky (escritor russo, 1821-1881) tem plena atualidade: Um homem culto, um europeu dos nossos dias, pode acreditar, acreditar mesmo, na divindade do filho de Deus, Jesus Cristo?

Cansaço da fé

Vivemos o cansaço da fé, a “lassidão da fé”, como disse Bento XVI, o “fartum”, em comparação com África, onde não há tédio em ser cristão. Nós até vamos às celebrações, cumprimos os nossos deveres, mas no fundo, achamos que “eles [os não crentes] divertem-se mais do que nós”.

Cinco lições da JMJ

Bento XVI (no encontro com a Cúria Romana, no Natal de 2011) recordou que há um modo novo e rejuvenescido de ser cristão, patente nas Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ). Dessa experiência o Papa tirou cinco lições:

1.ª Na diversidade de manifestações experimentou-se a universalidade da Igreja. Igreja una na diversidade e universal na unidade. Ora, nós pensamos a Igreja ainda de modo muito particularista.

2.ª Emoção do encontro com voluntários. No voluntariado aprende-se a educar no espírito de serviço. Aprende-se a conhecer Cristo não ideologicamente.

3.ª Adoração. Foi introduzida pelo Papa nas JMJ. Na noite de temporal, em Madrid, o Papa preferiu omitir o seu discurso e ajoelhar-se perante o Santíssimo. Estabeleceu um novo critério com que todos nos devemos confrontar: o mais importante da Igreja não é o discurso, mas a adoração. Preferiu pôr dois milhões de jovens em silêncio a fazer o discurso que tinha preparado. A presença de Cristo é o centro da Igreja.

4.ª Destacou a importância da penitência, que já vinha das jornadas anteriores. Confessar os pecados é uma coisa natural, faz parte da vida. Tem de fazer parte da proposta normal da vida cristã.

5.ª A alegria, que deriva da fé. “Eu sou desejado; tenho uma missão na história; sou aceite, sou amado”, diz Bento XVI.

Estas cinco lições valem também a pastoral universitária.

A fé, primeiro

O ponto central da pastoral universitária, como de qualquer pastoral, é a fé. Geralmente, a ação da Igreja anda centrada nas consequências da fé. É um erro dar por adquirido que as pessoas têm fé. A fé como pressuposto. Isso gera uma “pastoral predicativa”, superficial, que pode apelar ao compromisso social, mas não dá para ser igreja. Propor a fé, educar a fé, cultivar a fé, aprofundar a fé, isto é que é o núcleo essencial da ação da Igreja. Dá-se a fé como pressuposto e depois começa-se a pastoral pelo segundo capítulo. Isto faz com que não se ensine nada na catequese das crianças e jovens. Chegam ao fim do percurso sem nada.

Pastoral universitária

Na pastoral universitária de Lisboa há pelo menos seis organizações católicas no terreno: Schoenstatt, Capelania da Universidade Católica, Equipas Jovens de Nossa Senhora, Comunhão e Libertação, Jesuítas, Pastoral Diocesana (Ceuc). Atuam em fraternidade, certamente, mas não em coordenação. No Natal acontece um grande concerto, mas é por iniciativa dos próprios jovens.

Há vida católica nas universidades portuguesas. O deserto alarga-se, mas para viver no deserto é preciso ter consciência do deserto, e identificar o que não é deserto e apegar-se a isso. Há focos de entusiasmo, de amor a Cristo. Não tenho saudades dos tempos antigos.

Tolerância

Os cristãos devem ser tolerantes, porque isso não significa uma fé débil. Há uma tolerância que não nasce da descrença, mas da caridade. O ecumenismo não nasce da descrença. Nasce do amor pela verdade. Se há uma pepita de ouro no outro [confissões cristãs, religiões, correntes…], suporta-se toda a lama por causa dessa pepita.

“Quero ter fé”

Se alguém me diz que quer ter fé, mas não consegue, só lhe ligo para rezar a oração dos ateus: “Meu Deus, se existes, faz-me acreditar em ti”. Esta é a atitude coerente. Se alguém me diz que gostava de ter fé, mas não tem, eu digo-lhe: “Não tens fé? Vive como se tivesses. Deus ta dará. Faz tudo «etsi Deus daretur», «como se Deus existisse», à maneira da aposta de Pascal. E ela surgirá”. Falta a lhaneza de dizer isto com clareza às pessoas que procuram a fé.

Encontro

O cristianismo é um acontecimento. É o encontro com Cristo vivo. É isso que dá realidade à Igreja. Os apóstolos encontraram-se com Jesus, mas não foram para casa fazer um alto raciocínio teológico e filosófico para a seguir chegarem a conclusão de que deviam anunciar Jesus. Faz parte do encontro dizer: encontrei-me com Jesus.

Como ser

professor católico

O professor católico é missionário fazendo bem o que tem de fazer, dando boas aulas da matéria de que é professor.