Questões Sociais Acha-se consagrada, há muito, a dicotomia entre o domínio económico e o social. De acordo com esta ideologia – dominante à esquerda e à direita – o domínio económico orienta-se para o lucro, e o social para a garantia do bem-estar. O económico deve contribuir, através de contribuições, impostos e dádivas, para o social, e este deve gerir correctamente os recursos que lhe são disponibilizados.
Tal ideologia despreza três realidades fundamentais: a luta pela subsistência, a responsabilidade social das empresas; e a promoção do desenvolvimento local. Na luta pela subsistência, os cidadãos e as famílias procuram desenvolver actividades que lhes permitam sobreviver com dignidade. Em vez de ficarem na dependência de prestações sociais, procuram ganhar autonomamente seus próprios rendimentos.
A luta pela subsistência existiu sempre ao longo da história; constituiu a principal forma de luta contra a pobreza, e traduziu-se em actividades informais e em micro e pequenas empresas; alguns «lutadores» pela subsistência estiveram na origem de médias e grandes empresas. Entretanto, o desenvolvimento das políticas sociais, ocorrido a partir de meados do século XX, deu origem ao menosprezo desta luta; criou-se até a mentalidade segundo a qual é mais «honroso» receber uma prestação social do que trabalhar em certas actividades. Dentro da mesma lógica, a crise financeira actual está a ser aproveitada para a melhoria daquelas prestações – o que é óptimo – e para o menosprezo do trabalho de subsistência.
A propensão para a dependência das prestações sociais já faz parte da nossa condição «genética», e provavelmente, assim vai continuar enquanto o Estado, os partidos políticos e outras forças dominantes continuarem a afinar pelo mesmo diapasão. Tudo poderia ser diferente se estas entidades não olhassem para a luta pela subsistência como realidade marginal, a erradicar, mas sim como dinamismo a dignificar. Para tanto, seria necessário, em especial: facilitar o exercício legal das actividades; facilitar o escoamento de produções; difundir informações sobre oportunidades de negócio; apoiar a qualificação do trabalho e no trabalho; erradicar os oportunismos no acesso a apoios; adequar a legislação…
Em próximos artigos, far-se-á uma ligeira abordagem da responsabilidade social das empresas e à promoção do desenvolvimento local, neste aspecto. Entretanto, convém deixar claro que o futuro do emprego, dos rendimentos e da justiça social passa em larga medida pelo respeito e promoção da luta pela subsistência e de outras actividades que são, ao mesmo tempo, sociais e económicas: sociais, porque intervêm na luta contra a pobreza; económicas, porque são geradoras de rendimentos.
