Educação cristã é mais do que cumprir normas religiosas

Semana Nacional da Educação Cristã – 5 a 12 de Outubro Vivemos numa sociedade pluralista que nos vai “obrigando” a ver as coisas e a olhar as realidades de um modo muito diferente daquela a que nos habituámos. Este pluralismo, muitas vezes mais teórico do que prático, leva-nos a pôr em questão tudo e todos, mesmo aquelas realidades que nos pareciam mais “dogmáticas”.

Falar-se hoje em educação é entrar dentro de um destes mundos em que é difícil referenciar parâmetros que encaixem o apoio de todos. Apregoa-se aos quatro ventos a educação para os valores sem que se tenha deles uma clara definição, ainda que somente filosófica!

Se não estamos de acordo quanto a definições de valores, muito menos vamos concordar na elaboração de projectos de carácter educativo. Atente-se, por exemplo, no facilitismo generalizado pretendido por uns como caminho de liberdade e crescimento, e na exigência experimentada do trabalho e do compromisso assumidos como via de maturidade humana e social, por outros.

Nem a nível dos responsáveis se consegue chegar a um consenso maioritário neste projecto educativo. Complicado, sem dúvida!

De uma maneira ou de outra, o mais grave ainda é que as diversas opiniões sofram, a maior parte das vezes, da mesma doença: são opiniões tomadas ao sabor das marés e raramente fundamentadas. Por isso, fala-se por falar, opina-se por opinar, a moda é discordar.

O que referi é igualmente válido em relação à educação chamada religiosa. Por isso, permitam-me, em Semana Nacional da Educação Cristã, chamar a atenção para alguns aspectos. Queria dizer que educação religiosa não é a mesma coisa que educação cristã. A educação religiosa fica-se, muitas vezes, pelo superficial, pelo ritual, pelo mero cumprimento de obrigações que são satisfeitas na base de algum sentimentalismo, de algum medo, com alguma marca de capricho pessoal ou de  grupo, e de modo, quase sempre, ocasional.

Individualiza-se a relação com o divino, invoca-se o divino para proteger o humano, sobretudo quando sou eu que estou em causa. E quando se precisa… a gente sempre tem de bater à porta de Alguém!… Este individualismo pode facilmente redundar num “patinar” em que as rodas andam, mas não desenvolvem movimento. A evolução e a renovação não cabem aqui; o legalismo ganha forças de “dogma”, o ritualismo sobrepõe-se à vida, o grupo transforma-se em seita, o egoísmo impõe-se e tudo terá que girar à nossa volta. E eu, firme, cá tenho a minha fé, que conservo fielmente, qual jóia num cofre bem guardada, qual dama num castelo bem protegido, até dos ventos, porque até os ventos podem trazer o mal.

O sentido do religioso é bom porque nos conduz ao divino, mas só é levado à plenitude quando esse divino vem até nós, encarna em nós e muda, contínua e progressivamente, a nossa vida: isto é a educação cristã. Ela é uma relação pessoal e amiga com Deus que nos leva a estabelecer igual relação, prática e comprometida, com a sociedade, tal qual ela se nos apresenta, esta e não outra, com a Igreja, a de Jesus Cristo e não a minha, com as pessoas concretas e seus os projectos concretos. Enquanto o meramente religioso diz “quando precisar rezo”, o religioso cristão faz do mundo e da vida uma oração: É através de atitudes concretas e diárias, de uma vida sem compartimentos fechados, que Deus passa pelo mundo e o mundo passa para Deus.

Precisamos de educar a nossa fé: Ela exprime-se diariamente em intervenções e atitudes correspondentes aos princípios e valores que apregoamos: É vivencial.

Se assim não for, em vez de FÉ, teremos uma “fèzada”, (desculpem o erro, mas é intencional), sintoma doentio do vazio religioso. Quantas confusões se geram nas nossas paróquias por falta de educação cristã dos nossos católicos!

O cristão não pode ser apenas religioso; tem que ser cristão, isto é, tem de viver à maneira de Jesus Cristo que, em obras e palavras, passou FAZENDO o bem.

*Responsável diocesano da Vigararia da Educação Cristã