1. Naturalmente, os Presidentes da República (PR) fazem visitas dentro e fora do país. Umas são predominantemente protocolares. Outras configuram-se mais interven-toras. Nestas últimas, realçam-se as “presidências abertas” que, entretanto, receberam outras designações.
As “presidências abertas” são objecto de alguma simpatia, porque dão visibilidade a problemas do país e a exemplos positivos, dão voz a descontentamentos, congregam esforços e geram compromissos. Contudo, também se encontram expostas a riscos sérios, tais como: (a)- a ingerência em assuntos do Governo; (b)- a difusão da ideia de facilidade na solução dos problemas pendentes; (c)- a difusão da ideia de que o PR manda nos outros órgãos de soberania e em toda a administração pública; (d)- e a dependência do PR em relação aos meios de comunicação social (MCS).
2. O PR não dispõe de competência para a solução directa de problemas de cidadãos e de instituições. Tal competência pertence ao Governo e aos Tribunais.
Nada obsta a que tome posição acerca dos diferentes problemas do país. Será, porém, eticamente incorrecto o recurso a intervenções não fundamentadas acerca da facilidade de soluções e da culpabilização de outros órgãos de soberania ou de quaisquer entidades. Mais erróneo seria o PR alimentar, ou deixar correr sem contestação, a ideia de sobranceria, ou comando, em relação aos outros órgãos de soberania. E, pior ainda, se tomasse partido contra esses órgãos.
O risco de dependência em relação aos MCS justifica particular prevenção. Na verdade, generalizou-se a ideia perversa de que as “presidências abertas” só têm peso político se forem devidamente cobertas pelos “media”. Acha-se difundida subliminarmente a convicção de que o PR só existe, nestes casos, se os MCS o reconhecerem e lhe derem visibilidade.
Ao contrário de tão grave perversão, o valor das “presidências abertas”, e de outras visitas, provém do contacto directo com o povo e com instituições diversas. Esse contacto visa a consciência de problemas, a clarificação de causas, a congregação de esforços na procura de soluções, a assunção de compromissos para que estas se concretizem e a posterior avaliação de resultados.
A visibilidade da acção presidencial traz, sem dúvida, algumas vantagens. No entanto, o valor por excelência desse trabalho reside nele próprio, na interacção que suscite e nos resultados que, através dele, sejam alcançados.
