As surpresas da violência sucedem-se ciclicamente, sempre com novos contornos, deixando sinais de preocupação e angústia nas populações e nos dirigentes políticos. Aquilo que, até há pouco tempo, era considerado estratégia de grupos terroristas conhecidos, identificados com causas político-religiosas, desta vez extravasou o calculável. Agora, é a Europa que está em causa e uma nascente de racismo e xenofobia que não sabemos onde levará.
A loucura de Oslo deixou o mundo perplexo. Com razão nos podemos todos perguntar como é que uma sociedade de bem-estar e sucesso económico produz um foco de incerteza e insegurança generalizada na Europa.
Um dos gigantes políticos europeus – Helmut Schmidt – publicou recentemente um livro – Religião na responsabilidade. Perigos da paz no tempo da globalização -, no qual, embora confessando algumas dificuldades doutrinais e mesmo desilusões, permanece na Igreja, porque ela “põe contrapesos à decadência moral na nossa sociedade e oferece apoio moral, que de outro modo se não tem”.
Esta lucidez de reconhecer a indispensável presença dos valores morais de inspiração evangélica a vertebrar a construção pessoal e social não deixa margem para dúvidas. Nessa linha, dá razão à colega Marion Gräfin Döndorf: “Uma sociedade sem normas morais desfaz-se; uma liberdade desenfreada leva à brutalidade e à criminalidade. Todas as sociedades precisam de laços. Sem regras, sem tradição, sem consenso quanto a normas de comportamento, nenhuma comunidade subsiste”. E acrescenta: “Não podemos viver em paz, sem os deveres e as virtudes desenvolvidos no cristianismo”.
A anomia moral, por falta de referências religiosas, a “alergia” aos fundamentos cristãos da Europa, lançam o caos e eclipsam o eventual rumo de uma comunidade europeia multicultural, multi-racial, multi-religiosa, que seja verdadeiramente uma “casa comum”. A Noruega vai continuar a prezar a liberdade… Poderá, talvez, ter de rever, como os outros países da Europa, a urgência de referências metafísicas, que dêem origem a uma construção moral que garanta estabilidade e harmonia.
É o mesmo Helmut Schmidt que confirma: “Apesar do Iluminismo crescente desde há quatro séculos – e apesar do ateísmo comunista -, a necessidade metafísica de orientação do Homem manteve-se viva”. É que o ser humano precisa de orientação na busca do sentido da vida, na procura das respostas às “perguntas últimas”. As religiões são a expressão desta busca da verdade que dá sentido à vida.
Sem mergulhar neste oceano profundo da existência, a cultura europeia venderá ilusões e mentiras, que produzirão cada vez mais fenómenos de crime, de terror, de “suicídios” mediáticos.
