Tiago Matias, professor de Música na Escola de Artes da Bairrada e no Conservatório de Aveiro e maestro-adjunto do Coro da Sé de Aveiro, é um dos poucos especialistas portugueses em instrumentos de corda antigos. Integra, por isso, o projecto musical Sete Lágrimas, um grupo de música antiga com incursões pela música contemporânea que lançou recentemente o quinto álbum. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.
CORREIO DO VOUGA – O grupo Sete Lágrimas está sedeado em Lisboa. Como passou a integrar o colectivo?
TIAGO MATIAS – O projecto existe há 11 anos, primeiro com outro nome. Agora chama-se Sete Lágrimas e já editou cinco discos. O nome foi retirado de uma composição do músico inglês John Dowland (1563–1626), “Seven tears”. O grupo é liderado por Filipe Faria e Sérgio Peixoto, directores artísticos do projecto. Ele entraram em contacto comigo para gravar o segundo disco, mas na altura não pude e não participei. A partir do terceiro disco, “Diáspota.pt”, já pude e faço um grande esforço para poder.
Convidaram-no porque é especialista em música antiga…
Tenho a sorte – ou melhor, não é sorte, é uma aposta minha – de estar a especializar-me em instrumentos de música antiga. É o caso da tiorba, do alaúde e das guitarras antigas. Em Portugal seremos uns quatro a tocar estes instrumentos. Foi uma aposta boa porque já tinha estado a tocar com vários grupos de Lisboa. Eles viram-me e convidaram-me.
Porquê esse gosto por instrumentos antigos?
Fiz o curso de Guitarra, acabado em 2005, mas desde o meio do curso que já sabia que iria enveredar pela música antiga, por questão de gosto e porque vi que era uma boa hipótese de estar a tocar mais e a participar em mais projectos.
Um dos instrumentos que toca é a tiorba…
Sim, um instrumento que nasceu em Itália, mas existiu em toda a Europa, inclusive em Portugal. Vários manuscritos provam a existência do instrumento por cá. Era muito usado nos séculos XVII e XVIII, entre 1600 e 1750…
O que é específico da tiorba? As composições para a guitarra são também para a tiorba?
Não. Estamos a falar de instrumentos antepassados da guitarra. A guitarra que hoje conhecemos surgiu no séc. XIX, por volta 1840. Houve vários instrumentos que lhe deram origem: o alaúde, a tiorba, a violela… No caso da tiorba, a principal característica é que tem um âmbito muito grave e mais cordas: 14. É um instrumento grande, dá mais volume do que a guitarra.
Os Sete Lágrimas editaram há dois meses “Pedra Irregular” e preparam-se para lançar “Vento”, em Novembro. É necessário um grande esforço para conciliar carreiras individuais com um projecto colectivo…
Somos todos músicos de profissão. Há um núcleo central dos dois fundadores, depois um grupo mais alargado de três ou quatro que participa em todos os projectos, em que me incluo, e depois há músicos que vêm de fora, tudo gente ligada à música, incluindo um inglês e um ucraniano, residentes em Portugal.
Trabalhamos em função de projectos. Vamos ter uma semana de ensaios antes de irmos a Espanha, em Dezembro, e depois trabalhamos duas semanas em Janeiro para gravar o sucessor de “Vento”. O trabalho é feito em Lisboa, mas o projecto tem músicos de Braga, Porto e de Aveiro – o meu caso. É um grupo nacional, embora com sede em Lisboa.
“Diáspora.pt” foi o primeiro CD em que participou, em 2008. Depois saiu “Silêncio”, em 2009, e “Pedra Irregular”, este ano. Segue-se “Vento”, em Novembro, e “En tus brazos una noche”, em 2011. Há uma componente religiosa em alguns destes discos…
Dos cinco discos que já saíram, os dois últimos e o que vai sair em Novembro são de música exclusivamente religiosa. Todos os discos seguem um conceito. O último disco, “Pedra Irregular”, é composto por música de compositores portugueses do séc. XVIII, sendo Carlos Seixas o mais conhecido. Chama-se “Pedra Irregular”, porque é isso que significa a palavra portuguesa “barroco”, que deu nome a este período musical e artístico dos séculos XVII e XVIII.
O próximo disco, “Vento”, é uma Missa de Pentecostes de João Madureira (n. 1971), um compositor contemporâneo português. Mas o disco que vamos gravar em Janeiro de 2011, já não tem este carácter. Baseia-se na música de um compositor português do séc. XVII, Manuel Machado.
E quanto a “Silêncio” e “Diáspora.pt”?
“Silêncio” é um projecto muito interessante porque é com música de três autores de países diferentes: João Madureira (n.1971), português, católico; Ivan Moody (n. 1964), ortodoxo; e Andrew Smith (n. 1970), protestante. Baseia-se em textos religiosos populares e em textos da Paixão e dos livros bíblicos do Génesis e das Lamentações.
“Diáspora.pt” é um disco com música que os portugueses inspiraram por onde passaram: Brasil, Cabo Verde, Índia, Timor… Trata-se de música dos séculos XVII, XVIII e XIX, cantada com as pronúncias dos respectivos países. Temos sempre um conceito por trás de cada disco. Não há música feita à pressão.
Diz-se que os CD vendem-se cada vez menos, por causa das cópias ilegais e dos downloads ilegais da Internet. Os discos dos “Sete Lágrimas” vendem bem?
Nós apostamos num nicho que é o da música antiga e contemporânea tocada em instrumentos antigos, tiorbas, alaúdes, violas de gamba. A especificidade do grupo é essa. Podemos dizer que os discos vendem bem. “Diáspora.pt” esteve em número dois do top de Fnac, na vertente jazz e clássica, cerca de meio ano, o que é muito bom. Mas é preciso notar que o projecto “Sete Lágrimas” tem o apoio financeiro do Ministério da Cultura.
À partida as pessoas que ouvem este tipo de música não fazem downloads ilegais…
Isso é verdade. É um público que se preocupa em comprar o CD. Por falar em Internet, temos um sítio em www.setelagrimas.com.
O jornal “Público” escreveu sobre o projecto o seguinte: “A filiação dos Sete Lágrimas não é a das interpretações historicamente informadas, ainda que os seus membros tenham formação nessa área e usem instrumentos antigos. É antes a da experimentação e da proposta de um olhar próprio, como o grupo tem demonstrado através de uma original discografia (…)”. Concorda?
Isso está correcto e temos noção disso. Todos temos conhecimentos de forma a podermos fazer as coisas de um modo “historicamente informado”. Mas nós temos a opção de não fazer assim. Temos uma base, mas seguimos uma liberdade que só se pode ter quando se tem um certo nível de conhecimento. No fundo, sabemos como é, mas escolhemos não fazer desse modo. Mas atenção que estamos a falar de coisas mínimas. Temos um grande rigor de partitura. Isto passa-se ao nível da escolha de um ou outro instrumento, ou em tocar com a diferença de uma oitava. Mas temos um estilo próprio, sem dúvida.
Quais são os seus gostos musicais, clássicos e populares?
Acima de tudo, Bach. Ouço mais música antiga, essencialmente barroca. Também gosto muito de Monteverdi. Do século XX, gosto de Mahler, em termos sinfónicos, apesar de, com uma guitarra, nunca participar numa sinfonia.
Quando anda de automóvel, por exemplo, ouve música pop, ou vai sempre sintonizado na erudita Antena 2?
Ouço a TSF, a Renascença, a Antena 1, principalmente por causa da informação. Como estou sempre a dar aulas e a estudar música, de carro não ouço nem quero ouvir música. Só ouço a Antena 2 quando há algo que, antecipadamente, sei que quero ouvir.
Nada de música pop?
Gosto de Sting e de Police. Toco baixo num quarteto jazz. Bowling Quartet, cá de Aveiro. Jazz clássico. É um gosto em paralelo, para o qual não tenho muito tempo.
