Poço de Jacob – 75 Neste ano litúrgico A fomos brindados, no terceiro domingo da Quaresma, com o saboroso relato do encontro de Jesus junto ao Poço de Jacob. A samaritana absorve-nos e encanta-nos. Ia ao poço buscar água para lavar, beber, regar… Levava uma vasilha. Ali, no poço, estaria um balde de pele de animal para recolher a água. Encontrou um estranho judeu que lhe pediu de beber, podendo Ele mesmo dar-se ao trabalho de puxar o balde. Colocou-se, em diálogo, ao nível dela, na água que ela ia buscar, pois foi o que ela entendeu quando ouviu: “Dá-me de beber”. Não sentia sede de mais nada. Afinal, tinha um marido que nem era o seu, como tantas hoje, e isto lhe bastava. A vidinha corria bem. Não precisava de mais nada. Mas descobriu que esse estranho a elevava a uma altura de interpelação que superava a água que ela ia buscar ou que ela entendia que ele necessitava. Ele começou a tocar profundamente na consciência adormecida e ela reagiu levando a conversa para questões político-religiosas, como hoje também se faz. Mas ele não desistiu e falou-lhe de água viva. Ela sentiu sede dessa água: “Dá-me dessa água…”
E ela embriagou-se do divino. Quem o diz assim é santa Teresa de Jesus, quando se refere à samaritana em várias passagens de seus escritos. A samaritana, para ela, era uma embriagada do Deus Amor. Saciou-se na Fonte do Amor de Deus e ouviu, como o soldado no calvário, o “tenho sede” de Jesus – que também comoveu Teresa de Calcutá ao longo de toda a sua vida. Então, embriagada de amor, foi saciar a sede do Senhor, segundo santa Teresa, “dando gritos pelas ruas”, numa “bebedeira divina”, para levar até ele a aldeia inteira de Sicar. De grande consolação se deve gozar, diz santa Teresa de Jesus, quando vemos que outros encontram Deus por nosso intermédio.
A samaritana saciou a sua sede e quis saciar a sede de Deus. Mas, Deus pode ter sede? Afinal nada lhe falta! Tem sede de ti e de mim, do teu amor e do meu…. Tem sede de almas. Misteriosamente, é por isso que veio à terra e morreu na cruz. Para matar a sua sede e matar a nossa, pela água viva do amor. Quer-nos embriagados de amor, colocando só em Deus o nosso pensamento , como continua Teresa de Jesus. E que não façamos caso das coisas mesquinhas desta vida, pois “só Deus basta”.
A samaritana sentiu-se seduzida pela Palavra, e não pôde fazer outra coisa senão anunciá-la. Trouxe Sicar aos pés do redentor e deixou-os em retiro com ele, dois dias, para que eles também se enamorassem do senhor da água viva. E creram… E embriagaram-se… E anunciaram, contagiando outros… E graças a essas almas enamoradas que povoam o mundo, o Evangelho chegou à minha porta. Se sou católico, é por causa dos embriagados de Deus que foram, gritando pelas ruas, a tempo e a destempo, a Palavra que os embebedou. E como Sicar, eu também sou convidado a esse enamoramento pessoal, a deixar-me seduzir, tocar no pecado e ferida da alma e ser curado, e permitir que um rio de água viva jorre do meu peito, colocando só em Deus o meu pensamento, e ir por aí gritando, por palavras e obras de amor somente, a Palavra que tudo cria e transforma.
O mundo morre de sede. A fonte está nos teus lábios e no teu coração para que bebas dela e dês de beber aos outros. Deus habita em ti. Então, com Teresa de Ávila, no início das celebrações do quinto centenário do seu nascimento (nasceu no dia 28 de Março de 1515), poderemos cantar: “Ditoso o coração enamorado, que só em Deus põe o seu pensamento. Por ele renuncia ao criado, e nele acha glória e alento”.
P.e Vitor Espadilha
