Emergência educativa ou beco sem saída

Fiquei perplexo ao ouvir, na rádio, a Ministra da Educação a fazer contas sobre o rombo financeiro que constitui para o país o facto de muitos alunos, milhares segundo consta, das escolas estatais que não passam e têm de repetir o ano. É um rombo de milhões que a outros fazem falta. Logo se ficou a perceber que, preparados ou não, todos têm de passar. Calam-se assim os impertinentes e incómodos fiscais da Europa e gasta-se menos dinheiro com os profissionais da cabulice…

Esta tem sido, mais ou menos, a saída fácil para vários problemas nacionais graves, que o são no presente e que, mal resolvidos, comprometem sempre o futuro.

Eu sei que há aulas de recuperação, professores disponíveis para ajudar os que não querem ou podem menos, propostas diversas para evitar os maus resultados escolares. Mas, pelos vistos, o resultado é pouco e, em alguns casos, parece que nulo.

Ninguém pode dispensar um governo, nem ele próprio se pode dispensar, de se orientar por princípios éticos e de ter, no seu horizonte diário, realismo, vontade e decisão de lutar pelo melhor bem do povo a que serve. A fidelidade é às pessoas e ao seu bem, presente e futuro, não é a projectos ou ideias meramente pessoais, ao seguidismo empobrecedor de estranhos, ainda que pintados da mesma cor e fazendo alarde e propaganda dos seus pretensos êxitos. E, sem menosprezar o orçamento, ele não é tudo.

Os problemas que implicam comportamentos pessoais e sociais com maior repercussão, exigem sempre um juízo objectivo e sereno sobre as suas causas, as capacidades dos atingidos, a envolvência pessoal e ambiental com as suas ajudas e desajudas, a preparação qualificada dos intervenientes activos para que sejam educadores e não meros funcionários e realizadores de tarefas, pouco preocupados com os resultados finais. E, se tais problemas são objecto de leis ou de normas, não dispensam uma visão acertada daqueles que as produzem, legisladores ou governantes, para que não caiam na ingenuidade de querer atingir aviões a jacto com fisgas de crianças, pensarem que, feita a lei ou a norma, tudo fica resolvido, ou fazerem do seu posto jeito a grupos e a amigos.

Temos visto, em problemas humanos e sociais graves, as soluções mais inadequadas, porque não atingem o cerne do problema. Alguns exemplos: evitar a sida ou a maternidade precoce distribuindo preservativos nas escolas; atacar a toxicodependência, cedendo à pressão de legalizar e liberalizar o consumo de algumas drogas; sonhar com o fim do aborto clandestino designando meses e lugares e pouco mais; pensar que se curam as chagas dolorosas de um casal em crise com a facilitação do divórcio; pôr termo à desmotivação e cabulice dos alunos, passando-os sempre de ano; acabar com a criminalidade e a insegurança, multiplicando os polícias; diminuir os riscos nefastos da vida nocturna oficializada com seguranças junto dos focos de crimes nunca esclarecidos… E por aí adiante.

Brincou-se há anos com “a paixão pela educação”. Afinal é esse o único, mas difícil caminho emergente, do qual se pode esperar algum êxito, a médio e a longo prazo. Agora, se os problemas envolvem pessoas, cai-se nas soluções cosméticas, afectivas, emocionais, facilitadoras. Por isso mesmo e com razão, inúteis no presente e consequentes no futuro. Vai-se dizendo com sinais de irresponsabilidade: “Quem vier depois, que se arranje, que isto já não tem concerto”. Porque tudo isto e desta maneira?

Os valores éticos e morais acabam no caixote do lixo; as instituições que podem ajudar há que calá-las, por incómodas; os políticos confundem poder com saber e pensam que ao povo basta pão e jogos; as ordens vêm de fora, dadas por quem só fala do nosso atraso…Ou educação a sério, ou beco sem saída. A menos que se toque a rebate e se acorde de vez, com vontade e decisão de investir no essencial insubstituível.