Emília Nadal: “O método dos artistas é essencilamente o da procura, como a fé”

É pintora, mas Emília Nadal confessou que gostava era de ser música. Começou a expor em 1957, três anos antes de se licenciar em Pintura pela Academia de Belas Artes de Lisboa. Nos anos 70 ficou conhecida por criticar a sociedade de consumo com a série “Embalagens para conteúdos naturais e imaginários liofilizados”, que oferecia “produtos” como “detergente para lavagem ao cérebro”, “discursos políticos em flocos” e “Algarve enlatado”. Recentemente acrescentou embalagens de “Corruptil” e “Anticorruptil”. Algumas pessoas perguntaram-lhe onde poderiam encontrar tais produtos. Não estavam a brincar.

Emília Nadal presidiu à Sociedade Nacional de Belas Artes de 2005 a 2012 e foi condecorada pelo Presidente da República no 10 de Junho do ano passado. É habitual comentadora do programa Ecclesia (RTP 2).

Desta pintora, à entrada da exposição diocesana (patente até 7 de abril, com entrada gratuita) está um quadro sobre o Cântico dos Cânticos. O livro bíblico é um cântico de amor humano. Na pintura, Emília Nadal ilustra “a impossibilidade de reter a totalidade do amor no tempo e no espaço”. O amor, afirma, “vive-se entre a fugacidade e o recomeço. É dádiva e não posse. E como alguém disse, «só o amor é digno de fé»”.

Emília Nadal esteve no Museu de Aveiro na noite de 2 de março, no espaço da exposição de arte sacra do Jubileu da Diocese, para falar do “Transcendente presente”. Ou seja, a relação entre fé (ou não fé) e arte, Deus e a produção artística. Para o encontro, que contou com um momento musical de Diogo Alte da Veiga, esteve também convidado o escritor Gonçalo M. Tavares, que, devido a doença, não pôde comparecer. Aqui ficam as principais ideias da credenciada pintora.

O que é arte?

Reconhecemos que isto é arte e aquilo não é. A arte está para lá do utilitário. Reconhecemos num objeto de arte uma dimensão superlativa, a singularidade a que chamados beleza. Na obra artística, é frequente as pessoas verem coisas que não passaram pela cabeça dos autores. A imaginação das pessoas também é criação. É sinal de que a obra funciona.

Religião e arte

Não há religião que não tenha expressão artística, nas imagens, nos espaços, nos textos sagrados, nos objetos de culto. Mesmo religiões sem imagens, como o islão, usam a arte gráfica nos seus textos, nos belíssimos arabescos.

Procuras e relevações

Todas as expressões artísticas exigem muito trabalho técnico, com ferramentas adequadas, gramáticas e leis próprias. O método dos artistas é essencialmente o da procura, como a fé. Há lampejos, dúvidas, decisões arriscadas, revelações. O artista interroga-se: “De onde isto veio?” Por vezes acontece que a personagem não quer ir por ali. O pintor quer pôr um azul e o azul não quer ir para lá. A obra de arte brota da interioridade. Acontece quando acontece e se acontece. Quem explica como nasce a arte ou sabe muito ou é arrogante. Um artista amigo, não crente, a quem foi pedido que pintasse o Espírito Santo [tradicionalmente simbolizado pela pomba], por vezes fala da inspiração que não vem dele mas de outro lado como sendo fruto do “tal, o passaroco”.

Ateus mas inspirados

O transcendente na arte é independente da opção religiosa do artista. Muitos não têm consciência de uma espiritualidade, mas sentem que há uma dimensão que os ultrapassa. Há bons exemplos de arte religiosa feita por ateus em diálogo com as comissões de arte sacra, como é o caso da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa. No caso da Igreja de Siza Vieira (em Marco de Canavezes), aprecio o espaço, mas não alguns elementos, como a imagem de Nossa Senhora a 20 centímetros do chão ou a cruz de lado, de modo a não se ver toda. Isto tema ver com a intenção do arquiteto, que até nos edifícios públicos não quer que se veja o extintor ou placas que indicam as direções.

Verdade na arte

Na arte sacra o que é realmente importante é ser verdadeiro. Um Cristo crucificado muito bonitinho é uma mentira, pois Ele é a suprema beleza desfigurada. O mistério de Cristo é ser a humanidade trucidada, o divino no humano. A Santa Catarina toda repintada [referência a uma peça da exposição] é um mau restauro, mas é bonita na intenção do artista que quis pô-la bonita. É bonita nessa verdade.

Artistas e comissões

Na arte sacra os artistas não podem estar à solta. Tem de haver maleabilidade e sensibilidade de parte a parte. Almada Negreiros, para uma imagem de Deus para a Igreja de Nossa Senhora de Fátima (Lisboa), evoluiu de um deus grego para um deus irado para chegar ao Deus-Amor.

Cinema e arquitetura

O cinema é a grande arte do séc. XX, mas a arquitetura é a maior das artes porque dá a dimensão da humanidade ao espaço. Cria o ambiente feliz e harmónico. Sentimo-nos envolvidos.

Sobre a música litúrgica

O sagrado não pode ser banalizado. Não se pode pensar em transcendência sem exemplos que a transmitam. Para isso serve a arte. A liturgia não é uma reunião qualquer. O espaço, a música, os gestos, os objetos devem ser muito bons. Os senhores bispos dizem que tudo isto deve ser incentivado. Eu digo que se não for muito bom deve ser proibido, porque em vez de causar elevação causa irritação. Quando se vai a uma liturgia, o importante é a oração, não o animar as hostes. Canta-se pessimamente em Portugal. Não há educação musical. Até a “Grândola” é mal cantada. A algumas músicas usadas na liturgia eu chamo cantigas e cantorias. Ficam tão bem numa igreja antiga como uns ténis nos pés e um saco de plástico a fazer de mala numa senhora com um belo vestido e de chapéu. Podem ser usadas noutros lugares, num encontro de escuteiros, no campo, no estádio de futebol… Na liturgia, podem atrair durante algum tempo, mas depois cansam. Como a música na liturgia tem a função de ajudar à oração, à revelação, se não é boa, prefiro o silêncio.