Jornadas Nacionais de Comunicação Social A comunicação social dramatiza as tensões, explora as emoções. Nem sempre a Igreja se sente bem nesse encontro. Mas tem de cultivar essa relação
A Igreja e os meios de comunicação social vivem muitos “encontros e desencontros”. O mais recente foi provocado pelo discurso papal na universidade de Ratisbona e serviu de ponto de partida para as intervenções de D. Manuel Clemente, da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, e de D. Carlos Azevedo, porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, num encontro moderado pelo jornalista do “Público” António Marujo.
O caso de Bento XVI
Sem diabolizar o papel da comunicação social, D. Manuel Clemente considerou que houve uma “grande carga emotiva e de dramatização” sobre uma pequena parte do discurso de Bento XVI, aquela em que o imperador bizantino diz que Maomé trouxe “coisas más e desumanas”. Tal acontece porque a comunicação social “dramatiza as tensões”. É próprio da sua identidade. E também porque “há, de facto, um problema de violência nas religiões por resolver”. Apesar dos episódios de violência no cristianismo, nesta religião “houve uma racionalidade argumentativa que nunca desapareceu” e que remeteu constantemente para a atitude pacífica de Je-sus Cristo. Ora, no Islamismo, o “confronto com o fundador não é assim tão simples, porque o Islão nasceu em ambiente de combate. Maomé protagonizou combates. As suras [passagens do Alcorão] estão cheias de referências a combates. Não são de fácil espiritualização”.
D. Caros Azevedo, notando que “a Igreja tem uma visão de si própria que não corresponde à dos jornalistas”, sublinhou princípios programáticos para uma boa relação: “Para haver encontro é necessário que os intervenientes parem à mesma hora e no mesmo sítio. É necessário capacidade de escuta; não estar em ondas diferentes. Se a Igreja se prender às prioridades da comunicação sem ser fiel a si própria, depressa se volatiliza. Um bom jornalista é capaz de ir para além do epidérmico. Tem de haver abertura [da parte da Igreja], em vez de afastamento ou ruptura, que seria o fatal desencontro”. Apesar de tudo, como “todos os organismos vivos segregam resíduos”, haverá sempre equívocos, porque “o que digo não é o que é ouvido”.
Invocando a sua experiência enquanto porta-voz da CEP, D. Carlos Azevedo, constantemente solicitado pelos meios de comunicação social para comentar a actualidade, confessou que, por vezes, a indispo-nibilidade no imediato significa simplesmente que, entretanto, deve consultar o presidente da CEP.
Pe Tolentino Mendonça, sobre as redes de ontem e de hoje
“O computador é atmosfera e cultura”
A evolução da tecnologia não questiona apenas a transmissão da fé. Novos meios de comunicação requerem certamente novas linguagens para, através deles, comunicar. Porém, “o computador [símbolo de tudo o que é tecnologicamente novo] não é somente um instrumento, é uma atmosfera, é uma cultura”. Ou seja, uma envolvência que modela o que é dito, e também quem diz (o emissor) e o destinatário do que se diz (o receptor).
Estas ideias estiveram em foco na comunicação do padre e poeta Tolentino Mendonça, que referiu, a título de exemplo da transformação da identidade e dos modos de comunicação, a “ontologia do telemóvel”. Esse instrumento portátil, que tem a missão essencial de prolongar a voz humana, altera a nossa noção de tempo e prioridades (os encontros, por exemplo, são combinados, recombinados, avisados na véspera, uma hora antes e cinco minutos antes…), torna a comunicação muito mais imediata e fragmentada do que noutros tempos, isola-nos, quando estamos sem rede ou sem bateria, individualiza o contacto (uma pessoa, um número) e introduz uma pergunta absoluta: “Onde estás?”
No mundo afogado em meios de comunicação, “muitas respostas são ilusórias, mas as necessidades [de comunicação] são autênticas”, afirmou Pe Tolentino Mendonça. Daí que o mandamento de Jesus, “lançai as redes”, persista e tenha plena actualidade na era das redes informáticas, telefónicas, televisivas, enfim, comunicacionais. Essa actualidade não está, é claro, na tecnologia de Jesus, mas na atitude. Enquanto o judaísmo da época estava centrado no templo, numa “lógica de fechamento”, Jesus e os seus seguidores ultrapassam os limites. Lançam as redes a homens e mulheres, judeus e pagãos, senhores e servos. “Paulo foi o intelectual que fez o círculo das grandes capitais para anunciar as suas ideias. Tinha bons endereços, que lhe asseguraram bons apoios para a expansão do anúncio cristão. Aproveitou novos espaços, como os espaços públicos, a escola e a casa”, afirma Tolentino Mendonça. A atitude de Paulo, na senda de Jesus, só pode ser a atitude da Igreja.
2
dioceses portuguesas ainda não têm presença na Internet. Várias das que têm não actualizam a sua informação.
5%
das paróquias portuguesas apresentam-se no espaço virtual.
6000
visitas diárias no sítio www.agencia.ecclesia.pt, da agência informativa da Igreja Católica portuguesa.
500 000
exemplares vendidos por 60 títulos (jornais e revistas, a grande maioria de periodicidade semanal e mensal) de inspiração cristã. 40 destes títulos, entre os quais o Correio do Vouga, propõem-se colaborar com uma empresa que funcionará como intermediária entre as publicações e grandes anunciantes.
Serviço de perguntas e respostas sobre cultura católica
A Agência Ecclesia vai criar no seu sítio na Internet um consultório para responder às perguntas que lhe forem dirigidas. Em SOS Cultura Católica – assim se chama o serviço – os interessados poderão colocar questões sobre Bíblia, direito canónico, liturgia, história da Igreja ou qualquer outro tema religioso, que serão respondidas por especialistas. As respostas serão enviadas a quem fez a pergunta e publicadas em www.agencia.ecclesia.pt, onde qualquer pessoa poderá consultar.
Arquivo fotográfico católico
O Correio do Vouga quer uma fotografia do Cardeal Patriarca, mas não tem em arquivo. Por outro lado, tem muitas dos bispos de Aveiro ou dos santuários da região, que pode ceder a outros jornais e revistas. Porque não usar a Internet como plataforma de troca, compra e venda de fotografias? Este é, basicamente, o projecto de “arquivo fotográfico sobre assuntos religiosos”, liderado pela Agência Ecclesia e pela Associação de Imprensa Cristã. O projecto foi apresentado em Fátima e ainda não tem data marcada para avançar, mas poderá constituir uma preciosa ajuda para todos os jornais e revistas de inspiração cristã.
