Bispo de Aveiro em conferência de imprensa “Enquanto estiver na Diocese, estou a tempo inteiro. O que se ouve é especulação”. Com estas palavras, D. António Marcelino, antecipou eventuais perguntas sobre a sua saída da Diocese, no encontro com jornalistas que anualmente promove por altura do Dia Mundial das Comunicações Sociais.
O Bispo de Aveiro escusou-se a responder a qualquer questão sobre o seu futuro. “Quando houver novidades, serei o primeiro a saber. E eu não sei de nada. Como eu [com 75 anos completos e pedido de resignação feito], estão mais duzentos ou trezentos bispos em todo o mundo”, rematou. Mas prontificou-se a responder às outras questões da dezena de jornalistas presentes.
O primeiro tema lançado para a mesa foi “a religiosidade posta à prova pelo ‘Código da Vinci’”. D. António considerou que “a obra não põe em causa os valores da Igreja, mas pode pôr em causa a transmissão desses valores. Se as pessoas embarcam tão facilmente nisto, temos que nos interrogar: O que é que falta?”
Porque “a religiosidade superficial abana com superficialidades”, D. António sublinhou a necessidade de formação contínua para todos os cristãos, em horas e espaços diferentes dos tradicionais, de modo a que mais pessoas possam participar, não deixando de afirmar que “questionar e sentir-se questionado é importantíssimo”.
Festas religiosas gastam muito
Interrogado sobre “os maiores problemas da diocese”, D. António insistiu na “formação dos cristãos para viver num mundo plural” e mostrou-se preocupado com os gastos das festas populares, ignorando “a miséria que há à porta de casa”. “Estes problemas acompanham-me desde seminarista”, disse, adiantando que muitas vezes as pessoas que aparecem nas comissões de festas não são de prática cristã. No entanto, “se a Igreja não dá o nome do santo ou da santa, o povo não dá para a festa”, reconheceu D. António. Não se pode esquecer a dimensão familiar, cultural e religiosa das festas populares, mas estas constituem “um caso doloroso para bispo, padres e cristãos mais convictos”, concluiu.
O Bispo de Aveiro foi ainda instado a comentar o caso dos “padres que pedem muito dinheiro ao povo” e a “crise vocacional”. Sobre esta última, D. António defendeu que é uma consequência da baixa natalidade e da crise do casamento. Quando “um terço dos casais tem filho único, a criança não encontra incentivo vocacional nos pais, esperançados em serem avós”, afirmou. Neste contexto, “é mais fácil as vocações aparecerem no final de um curso superior do que quando criança”, como de alguma forma provam os três jovens adultos da diocese de Aveiro nessas circunstâncias.
Dá-se ao futebol demasiado relevo
Como o encontro foi convocado por causa das comunicações sociais, o tema tinha de fazer parte da conversa. O D. António Marcelino lembrou que, para a Igreja, “o novo púlpito é a comunicação social”. Porém, a Igreja não pode usar esses meios “para ser manipuladora ou prosélita”.
Num olhar pelo panorama da comunicação social portuguesa, o Bispo de Aveiro reconheceu a “força extraordinária dos media” e considerou preocupante o espaço dado ao desporto, principalmente ao futebol, com três jornais diários e muito relevo na informação televisiva, ficando para segundo lugar outras dimensões. Como exemplo de “coisas que ninguém diz”, referiu o seu texto da página 16 desta edição do Correio do Vouga.
D. António Marcelino não acha que haja uma manipulação dos jornais, rádios e televisões, como tem denunciado Manuel Maria Carrilho, um professor de filosofia “desastrado”, na expressão do Bispo de Aveiro; mas reconhece que “os potentados económicos sempre tiveram grande apetência pelos meios de comunicação social”.
