É verdade: a Sociedade em que vivemos é pouco moderna, porque, submissa ao turbilhão das emoções, do provisório, do pragmatismo e do relativismo, gera um caos permanente, conduzido subtilmente por pequenos grupos de interesses, ocultos mas poderosos, eclipsando toda a forma de pensamento organizado e de rumos de vida razoáveis, conscientes, assumidos responsavelmente.
É com esta atmosfera que temos de conviver. O que não quer dizer que tenhamos de nos submeter à sua altíssima toxicidade ou sejamos de todo incapazes de lhe contrapor antídoto eficiente, não apenas neutralizante dos seus efeitos desagregadores, mas gerador de um novo tecido social.
A lógica a que estamos submetidos, por virtude desta (des)estruturação mental e cultural, é a de uma felicidade no imediato, impulsionada por um consumismo feroz, o qual, à falta de poder trazer a saciedade duradoura a todas as aspirações, nos mergulha num clima de desilusão, pessimismo e depressão quase generalizada.
Pensamos que somos livres. E é isso que nos embala no encanto desta civilização. Querer, escolher, fazer o que nos apetece é a voragem que nos engole no rodopio do quotidiano.
Todavia, se pararmos um momento, daremos conta de que nunca como hoje fomos tão manipulados. Os gostos, as sensações que nos embalam e embriagam, os prazeres que nos inebriam as multidões, as cores que nos solicitam…, são programados, a longo prazo e ao milímetro, de forma bem escalonada, pelos tais grupos de interesses, ocultos e distantes, que já “sabem” – porque o dirigem – o que vamos “pensar”, aquilo de que vamos gostar, o que seguramente vamos “escolher”, na próxima primavera e verão, no Inverno que há-de suceder ao próximo… enquanto eles quiserem e nós deixarmos!
É verdade que temos a nossos pés, atulhando as nossas casas e as nossas mentes, quantidades monstruosas de informação, que nos permitiriam discernir – condição essencial para, aliada a uma vontade esclarecida e não sob a força de uma emoção momentânea ou um gosto volátil para escolher.
Mas a cultura do consumismo esvaziou o conhecimento, a possibilidade de relacionar e concluir, de distinguir. No furacão das emoções, a vontade eclipsou-se, reduziu-se ao nuclear inactivo… E resultamos seres humanos no aspecto, mas deficitários na preservação e exercício das nossas competências específicas. Só a proposta de uma ética criativa, que dê primazia à pessoa sobre o consumismo, só o regresso a privilegiar a relação, equilibrada com a individualidade, farão que a sociedade seja mais sociedade e seja verdadeiramente moderna, isto é, actual.
