Erguer a voz

O amigo não estava a brincar. Falava muito a sério, convicto de que as restrições à expressão pública da fé religiosa estão numa rota muito perigosa. Chegava mesmo a dizer que, para sermos equiparados aos judeus na caça que lhes fizeram durante a II Guerra Mundial, já só falta estipularem um sinal que marque todos os cristãos.

Não quis levar muito a sério tal susto, uma visão tão pessimista. O campo de respiração da fé, parecia-me, ainda faz-se ver e sentir ao longe – ia eu raciocinando. Movimentamo-nos com alguma liberdade nas nossas ruas, vamos tendo um espaço de radiodifusão, temos, por enquanto, a possibilidade de erguer templos…

Mas acabei por cair em mim e pensar se não terá razão aquela voz que me interpelou. É que o cerne da construção do futuro – a educação – já não é um espaço de liberdade religiosa. A neutralidade militante não apenas promoveu a remoção dos símbolos que identificam as crenças – e quem não é visto não é lembrado -, mas sublinha, entre as iniciativas de relevância da I República, a erradicação da Educação Religiosa da Escola do Estado. Será pura coincidência? Não andará por aí um “PREC de veludo”?…

Mais: a presença nos espaços educativos estatais de qualquer iniciativa suspeita de veicular valores que não se identifiquem com o laicismo republicano encontra, muitas vezes, sérios entraves ou mesmo obstrução total. Independentemente da própria liberdade religiosa, nem sequer é dada oportunidade de apresentar uma variedade de propostas de comportamentos que permitam uma escolha autónoma de atitudes, o verdadeiro exercício de liberdade de consciência.

É que, se há pais que se omitem, há-os também que desejam escolher padrões educativos para os seus filhos, direito que a Constituição lhes confere, que os restos de “clima ocidental” lhes consentem.

Quero acreditar que os portugueses não dormem. Todavia, tenho de fazer um exercício de boa vontade para não recear que possam ser entorpecidos por medidas hipoteticamente democráticas, que lhes varram a capacidade de pensar e de agir. Quando se dá prioridade a problemas que não resolvem o futuro do país, em detrimento de problemas estruturantes; quando se pintam quadros edílicos de borrascas ou calamidades declaradas… Tudo pode acontecer!

Então, antes que seja tarde, ergamos a voz, tomemos a vez, corajosamente digamos quem somos e o que nos move, que pessoa e sociedade defendemos. É tempo de repetirmos com os Apóstolos: Antes obedecer a Deus do que aos homens!