Erros gravíssimos (1)

Questões Sociais Vêm sendo cometidos erros gravíssimos na área social, antes e depois de 1974. Praticamente nenhum governo nem partido político os enfrentou até hoje; e não existem indícios de os enfrentarem no futuro. Quanto às instituições, a actual insuficiência de meios financeiros originou, compreensivelmente, a luta pela sua viabilidade; mas ainda não suscitou o reconhecimento e estímulo da acção social de base que se desenvolve todos os dias, com ou sem apoio estatal, e com ou sem ligação a instituições.

A maior parte dos erros já foi aqui aflorada. Nesta série de reflexões, abordam-se alguns que parecem mais graves, na actual situação de crise; dir-se-á que, nesta situação social gravíssima, se continuam a cometer os mesmos erros gravíssimos do passado.

O primeiro consiste no menosprezo da entreajuda e do voluntariado social de proximidade: entreajuda de familiares, vizinhos, amigos…; e grupos de voluntariado constituídos a partir das relações de proximidade. Mais gravemente ainda, o menosprezo atinge também muitas situações de carência grave acompanhadas por essa acção social de base. O Estado e a sociedade abandonam tais situações e, cinicamente, ainda humilham a entreajuda e o voluntariado com os qualificativos de informais, tecnicamente inferiores, obsoletos…; praticam, neste menosprezo, uma verdadeira acção de extermínio inconsciente.

É de notar que, no século XIX, Frederico Ozanam (já beatificado) recuperou e valorizou a entreajuda e o voluntariado de proximidade, através das conferências vicentinas; mais tarde surgiram os grupos Cáritas e iniciativas semelhantes. No entanto, a presunção político-intelectual dominante rejeitou esse esforço, apodou-o de «assistencialismo» ou «caridadezinha» e de falta de empenho na promoção social, na consagração de direitos e no desenvolvimento. Se as conferências vicentinas e os grupos Cáritas dão por vezes tal imagem, isso acontece não porque actuem como se imagina, mas sim porque assumem, e são transferidas para eles, responsabilidades muito superiores aos meios de que dispõem.