Escola católica, o que és? Para onde vais?

Jornadas no Colégio de Calvão realçam vocação da escola católica: escola com projecto, alicerçada na decisão e não na obediência, educadora da liberdade, capaz de acrescentar espiritualidade à sociedade

“Pode alguém trabalhar numa escola católica sem se comprometer no seu projecto educativo?” A pergunta foi lançada por D. António Marcelino, na primeira conferência das jornadas “Educar = Humanidade Nova = Justiça Social e Liberdade”, que decorreram no Colégio de Calvão, nos dias 21 e 22 de Maio, com a participação de 260 professores, maioritariamente de colégios católicos do centro do país. Em princípio, a resposta devia ser: “Não”. Na prática, pode não ser assim, havendo colégios católicos com uma grande maioria de professores que não se identificam com a Igreja, logo, dificilmente assumindo um projecto de matriz católica. “Uma escola com 80% de professore agnósticos ou ateus ainda é escola católica?”, interrogou.

O Bispo emérito de Aveiro realçou que a escola católica tem de ter valores éticos e religiosos e de propor “modelos exigentes”, mais humanizadores do que os “modelos efémeros do poder, do dinheiro e do prazer”. Na mesma linha, realçou a “exemplaridade na escola e fora da escola”, reportando-se à polémica da educadora que apareceu nua numa revista.

A questão da identidade do ensino das instituições católicas pairou sobre as jornadas. P.e Querubim Silva, director do Colégio de Calvão, que com o núcleo das escolas católicas da Diocese de Aveiro organizou as jornadas, disse ao Correio do Vouga: “As jornadas acontecem essencialmente para retomarmos o esforço de reencontrar a identidade da escola católica, para tomarmos consciência da existência de uma rede de escolas católicas na diocese e no país e afirmarmos a escola católica como uma alternativa válida na pluralidade constitucional exigível da liberdade de ensino”.

A reflexão não deve ficar por esta iniciativa. “As jornadas integram-se num plano global da Associação Portuguesa das Escolas Católicas (APEC), que tem nas suas propostas para os próximos anos realizar em cada ano um evento marcante, umas jornadas, um fórum ou um congresso. No próximo ano não haverá as segundas jornadas, mas haverá, porventura, um fórum, mas não na diocese de Aveiro”, adiantou o sacerdote que é também presidente da APEC.

Jorge Cotovio, professor em Coimbra e director da pastoral familiar da diocese vizinha, realçou a vocação da escola católica: “Mesmo remando contra a corrente dominante, tem de assumir a sua vocação transformadora da sociedade, contribuindo com o seu ensino de excelência, mas acrescentando-lhe a espiritualidade cristã, tão rica e sublime, capaz de transformar o homem em pessoa aberta aos outros e a Deus. É esta mais-valia o segredo que as escolas católicas encerram e que têm a gravíssima obrigação de pontenciar”.

Pelas jornadas passaram outros conferencistas, entre os quais Etienne Verhack, secretário-geral do Comité Europeu Ensino Católico, que congrega 25.698 escolas de 27 países, com os seus 7,6 milhões de alunos. Na abertura, D. António Francisco, Bispo de Aveiro, lembrou que na diocese existem quatro escolas católicas: o Colégio de Calvão (diocesano), o Colégio frei Gil de Bustos (propriedade da Obra Frei Gil, da diocese de Coimbra), o Colégio de Famalicão (das Irmãs de S. José de Cluny, Anadia) e o Colégio de Mogofores (dos Sacerdotes Salesianos).

Jorge Pires Ferreira

Tornamo-nos pessoas

Nascemos humanos, é certo, mas tornamo-nos pessoas. O específico do humano é o salto cultural proporcionado pela co-descendência (família), co-residência (sociedade, onde se insere a escola) e co-transcendência (religião). Mas a sociedade em que crescemos põe em causa qualquer destas dimensões. A crise não é económica, mas antes cultural e de sociedade.

Juan Ambrósio, professor da Universidade Católica

Obediência ou decisão?

Um ensino alicerçado no paradigma da obediência gera apenas obedientes ou rebeldes, é um viveiro fértil em infatilismos e seguidismos. São lugares de conformismo e individualismo, potenciais lugares de toxicodependência. No paradigma da decisão, “sou quando decido, não quando imito”. Decisão é o projecto de rebentar com os próprios casulos.

P.e José Fernandes, psicólogo, director do Colégio de Mogofores

Menu à porta

A escola católica nem sempre soube apresentar alternativas. É necessário um desenho antropológico cristão no espírito de cada um e que este se torne evidente na acção educativa. Não faz sentido uma escola católica como uma ilha. (…) Gosto de ver o menu à porta dos restaurantes. Mas não sei se os colégios católicos estão dispostos a mostrar-se na praça pública.

P.e Querubim, director do Colégio de Calvão