Escritores, cineastas e pensadores revelam no que acreditam

LIVRO Série de 18 entrevistas mostra a fé e a descrença, as certezas e as dúvidas de figuras de relevo da cultura norte-americana e mundial

Figuras tão diversas como Paul Auster (escritor e realizador, com um filme – rodado em Portugal – actualmente em exibição), Jane Fonda (actriz), David Lynch (rea-lizador), Salman Rushdie (escritor), Martins Scorcese (realizador) ou Eli Wiesel (escritor, Nobel da Paz), ligados a diferentes religiões e tradições culturais, embora residentes nos Estados Unidos da América, aceitaram falar sobre Deus, a religião, a fé, a vida depois desta vida, o sentido da experiência humana, em entrevistas conduzidas por Antonio Monda.

Nem todos acreditam em Deus. Há os que conversam diariamente com Ele, há os que mostram interrogações sobre a sua existência, e os que estão convictos de que Ele está totalmente ausente do mundo, para não dizerem que, simplesmente, “não existe”.

Uma citação de Jorge Luís Borges abre o livro, dando claramente o tom da parte descrente dos entrevistados: “A ideia de Deus, um ser omnisciente, omnipotente e que, além disso, nos ama, é um das mais extraordinárias criações da literatura fantástica. Eu preferiria, de qualquer forma, que a ideia de Deus pertencesse à literatura realista”. Mas o tom não é de descrença. É de busca. “A procura é mais importante do que a conclusão”, diz Toni Morrison (norte-americana, primeira mulher de cor a receber o Nobel da Literatura).

Os títulos de cada entrevista revelam sugestivamente as convic-ções dos entrevistados. Paul Auster diz que Deus é “um mistério intrigante e insondável”. Saul Bellow, afirma: “Creio em Deus, mas não O incomodo”. Michael Cunningham afirma: “Somos todos filhos de Deus” (o que, tendo em conta a reconhecida homossexualidade do escritor, adquire outro alcance). Nathan Englander, um judeu que acredita “numa espécie de coligação íntima entre judeus e cristãos”, considera que “quem quer que tenha escrito a Bíblia é Deus”. Jane Fonda diz que “Cristo foi o primeiro feminista”. O ateu Richard Ford crê na “redenção da arte”, enquanto o realizador Spike Lee “já não sentia nada na Igreja”. A enumeração poderia continuar. São 18 os en-trevistados. Todos de leitura proveitosa.

O autor, Antonio Monda (“católico, apostólico, romano”, conforme responde a um dos entrevistados), é professor de Realização Cinematográfica na Universidade de Nova Iorque e colabora no diário italiano La Reppublica. Como organizador de festivais e eventos no Museu Guggenheim de Nova Iorque e noutras instituições culturais é figura de destaque na vida cultural norte-americana.

J.P.F.

Vocação que não se concretizou

“Tornei-me realizador para exprimir tudo por mim próprio, inclusive a minha relação com a religião, que é determinante. E, nos meus filmes, há quem encontre uma reflexão sobre uma vocação que não se concretizou ou que tomou outros caminhos” (pág. 117).

Martin Scorcese, realizador. Em jovem frequentou o seminário católico de Nova Iorque

Desafia as definições

“A minha ideia de Deus é a de um crescimento infinito que desafia as definições, mas não a consciência. Acredito numa experiência intelectual que intensifica as nossas percepções e nos afasta de uma vida egocêntrica e predatória, da ignorância e dos limites das satisfações pessoais. Quando maior é consciência, maior Se torna Deus” (pág. 88).

Toni Morrison, prémio Nobel da Literatura em 1993