Esmagado por nós

Catequeses Quaresmais Fazer memória. “A Igreja recebeu a missão de fazer memória. Aquilo que foi realizado no passado é tornado presente na Eucaristia”, disse D. António Marcelino na quarta catequese quaresmal. O tema geral foi “Entregue por nós e pela nossa salvação – assim o Pai é glorificado” e centrou-se na liturgia eucarística, aquela parte da missa depois do Credo, que começa com a apresentação dos dons, prossegue com a oração eucarística, que tem o seu ponto alto na consagração do Corpo e do Sangue de Cristo, e conclui-se com o rito da comunhão.

Levar ao altar. Dons recebidos, dons apresentados. Assim começa a liturgia eucarística. “O pão, expressão da nossa necessidade vital, e o vinho, expressão de alegria e festa, significam todos os dons solícitos do pai de família que cuida e alimenta os da sua casa, para que nela haja paz e saúde”, escreveu D. António, catequista, na folha que entrega aos catequizandos. São “matéria necessária do sacrifício, expressão da nossa humilde colaboração, consciência de que o que Deus faz por nós é sempre para nosso bem”. Realce para o processo que originou o pão e o vinho: “O pão de muitos grãos esmagados e o vinho de muitas uvas esmagadas prefiguram já o sacrifício d’Aquele que foi também esmagado para ser nosso alimento redentor”.

Porque o rito de “levar ao altar” o pão, o vinho e os dons destinados ao culto e aos pobres já é rico por si, o Bispo de Aveiro sugeriu que os ofertórios com muitos símbolos – normalmente tão ao gosto dos jovens e das comunidade em geral – fossem deixados para outros tipos de celebração que não a Eucaristia.

Devolvidos à procedência. “Santo Agostinho dizia que sacrificar é tornar sagrado, é devolver à procedência [Deus]”, afirmou D. António. A parte que inclui a consagração começa com um “convite aos novos sentimentos” (“Corações ao alto! Dê-mos graças ao Senhor nosso Deus!”) e ter-mina com “um forte ‘Ámen!’ da assembleia à glória que só a Deus é devida, por Jesus Cristo, no Espírito Santo”. Este Espírito Santo é invocado na epiclese, “invocação (ou chamamento) pela qual se pede ao Pai que envie o seu Espírito, ou ao Espírito que venha realizar uma acção que está para além da nossa capacidade e que compete ao próprio Deus”. O Espírito Santo é o protagonista na consagração. “Deus vai agir através do ministério do padre, mas é Ele que consagra”. E nesta consagração, somos todos sacrificados (no sentido de Santo Agostinho) a Deus: “Em Jesus Cristo, que se oferece por nós ao Pai, estamos todos nós, com o nosso ser, liberdade, inteligência, coração”. “Assim, vamos vendo e vivendo todo o sentido pascal da Eucaristia: passagem da morte à vida, do pecado à santidade, do amor a nós próprios ao amor de Deus, do isolamento à comunhão na comunidade, do eu ao nós, do receber ao dar”, afirma D. António.

Acto pessoal, acto comunitário. Na oração do Pai-Nosso começa o rito da comunhão, a qual, conforme realçou D. António, é um acto pessoal, mas também eclesial, pois “pela comunhão fazemos um com Cristo e com os irmãos, tornando-nos um só Corpo, o de Cristo, e uma única família dos filhos de Deus”. Daí que o maior risco, nas palavras do Bispo de Aveiro, seja este: “Há gente que comunga, mas não fica em comunhão” com os outros, ou então: “Tive um rito de comunhão, mas não tive um rito para a vida”.

Feita a comunhão, “tem sentido o cântico de júbilo e o silêncio que leva a saborear como o Senhor é Bom”. E a seguir? O “a seguir” é o tema da próxima e última catequese deste ano: “Em comunhão com Jesus Cristo e com os irmãos, a vida tem outro sentido”. Será na sexta-feira, 18 de Março, às 21h15, no Salão de S. Domingos.

J.P.F.