Pensar a Paróquia A paróquia é, na sociedade secularizada, a configuração da Igreja comunhão mais acessível a todas as pessoas. As outras formas de expressar a sua auto-compreensão são redutoras e acabam sempre por desfigurar a riqueza da verdade do seu ser e do seu agir. Só a comunhão está credenciada para condensar e revitalizar todas as dimensões paroquiais e, por elas, fomentar intensamente o dinamismo comunitário.
Ao ser comunhão, e não fusão num todo, é união familiar de Deus com os cristãos coerentes com a fé, os discípulos fiéis de Jesus, o povo dos baptizados marcados pelo Espírito. Ao ser comunhão, e não anulação das pluralidades, é união fraterna entre as pessoas, que, de modo consciente, vivem o amor que vem de Deus e circula nos corações humanos. Ao ser comunhão, e não absorção unificadora, é união respeitadora das capacidades humanas, dos níveis de adesão à mensagem e dos graus de envolvência na resposta adequada. A paróquia surge como realização local da Igreja, família em comunhão; da Igreja, escola de participação; da Igreja “fonte” da missão. Esta é a riqueza do seu ser que necessariamente se expande e revigora pelo seu agir, sempre aberto a dimensões novas pela “fantasia” da caridade.
Este perfil relacional contrasta profundamente com o modelo tradicional da paróquia massiva ou de multidões, societária ou de aglomerados corporativos, piramidal ou de oposições diferenciadoras, eclética ou de conjuntos fragmentados, anárquica ou de ímpetos voluntaristas, fruto de “inspirações” carismáticas, sem regras estáveis nem programas assumidos. A paróquia, enquanto Igreja de comunhão, engloba e valoriza o que estes modelos têm de positivo, “poda” o que neles é excessivo e está desvirtuado, acentua o que lhes falta e é fundamental, gera um modo novo de ser e de agir: assumir a vocação original, corresponder à missão prioritária que o Espírito lhe pede no tempo que é o nosso.
O sacramento, por excelência, da comunhão é a eucaristia celebrada em assembleia. Nela se concentra, em admirável harmonia, a união e a pluralidade, a família de filhos e de irmãos, a atenção a cada pessoa e à comunidade. Dela partem em missão, enviados a uma sociedade em transformação e necessitada de referências éticas fundamentais, aqueles que foram “instruídos” pela Palavra e robustecidos pelo alimento de Jesus Cristo.
A assembleia litúrgica constitui o espelho da paróquia organizada como comunidade de participação. Sirvam de exemplificação a pluralidade diversa de serviços e ministérios, as fases e o ritmo da celebração, a estrutura da funcionalidade, a variedade e coordenação de intervenções (de pessoas, grupos/coros, do conjunto), a definição clara dos objectivos pretendidos (que globalmente se podem condensar na glorificação de Deus que, em Jesus Cristo, salva a humanidade e dá sentido à nossa vida), a função ministerial do presidente, em nome de Cristo Senhor, para bem de todo o povo cristão.
A paróquia que é coerente com a estrutura da celebração eucarística tem necessariamente de organizar-se de forma participativa, de valorizar os serviços e ministérios existentes e reconhecidos ou de fomentar experiências para que venham a sê-lo, de articular a convergência de iniciativas em objectivos programáticos e a desconcentração de responsabilidades pastorais. É mais humano e cristão que, podendo, todos façam alguma coisa, pois desenvolvem as suas capacidades e sentem-se parte colaborante de um conjunto, do que alguns fazerem tudo, ainda que bem feito, impedindo os restantes de participar ou identificando eficácia apostólica com execução fiel do programa elaborado.
A organização participativa é fruto de convicções de fé, de pedagogias adequadas, de gestão de recursos humanos e materiais, de objectivos claros e acessíveis a prosseguir, como concretização da missão a realizar.
As convicções de fé abrangem, antes de mais, a certeza de que ninguém é completamente destituído de capacidades e dons concedidos pelo Espírito Santo e, pela sua “mão estendida”, a natureza e a cultura. A esta concessão deve corresponder um esforço humano por acolher, identificar, educar e promover o dote recebido. Faz parte deste esforço a atenção à realidade e o conhecimento dos seus desafios, o sentido da fé e as suas expressões, e o envolvimento na procura de respostas e as suas exigências.
A participação é uma atitude e um serviço englobante da missão da Igreja: na transmissão da fé, na oração e celebração litúrgica, na prática da caridade e na defesa e promoção da justiça social. Em todas estas áreas há necessidade de “novas ousadias”, sobretudo na relação com a sociedade onde a verdade se relativiza, a solidariedade se dilui, os direitos humanos se menosprezam, o feminismo se exacerba, a ecologia se esquece e a opinião pública se agita conforme as correntes de pressão.
A paróquia participativa pode receber um forte impulso dos movimentos apostólicos e do ministério ordenado, designadamente do pároco e da pedagogia usada no governo pastoral. A gestão dos recursos humanos, tendo em conta a missão global da Igreja na qual se integra a realização de cada pessoa, constitui o maior desafio a enfrentar na Igreja comunhão. A resposta a este desafio passa necessariamente pela renovação do modo de ser e agir de quem está responsabilizado pela função de presidir à caridade na unidade de dons, carismas, serviços e ministérios. A harmonia da diversidade faz surgir a paróquia como uma sinfonia de vozes e de instrumentos em que o tom e o som de cada um se integra, valorizando-se, na melodia do conjunto.
