Sabia que há três tipos de barcos moliceiros? Exposição no Museu da Cidade dá a conhecer esta embarcação da ria e deixa admirar reproduções dos painéis que lhe embelezam a proa e a ré. E não se esqueça de espreitar nos cilindros
No Museu da Cidade está patente uma exposição centrada no barco moliceiro, nos seus painéis decorativos, nos equipamentos e nas ferramentas empregues na sua construção.
Na entrada, um barco moliceiro, real, acolhe o visitante. No piso seguinte, entre muitas informações disponibilizadas, fica-se a saber que há três tipos de barcos moliceiros, consoante o seu comprimento: barco de Salreu (com 9 a 9,5 metros), barco Miranço ou de Mira (com 13,5 metros) e barco Murtoseiro (com 15 a 15,5 metros). Os moliceiros podem ter 2 a 2,5 metros de boca (largura). O comprimento das proas pode ir dos quatro aos cinco metros, enquanto a altura destas situa-se entre os dois e os três metros. O pano da vela tem 24 metros quadrados. O tempo de construção ronda os 25 dias. A duração média de cada barco é da ordem dos sete anos.
Nesse local também se fica a conhecer os símbolos / marcas identificativos de treze construtores de barcos moliceiros. De destacar ainda um molho de paus de pontos (medida) empregues na construção artesanal dos barcos.
No último espaço visitável, encontra-se um banco de carpinteiro naval, com as respectivas alfaias. No centro, o visitante é convidado a sentar-se nos “puffs” decorados com reproduções de painéis de proas de barcos moliceiros. Nas duas paredes laterais estão expostas dezenas de fotografias que retratam painéis humorísticos de proas e de rés de barcos moliceiros.
“Os painéis pintados na proa e na ré gozam de uma linguagem visual ingénua, quase infantil, mas dotados de uma admirável individualidade e criatividade, especialmente quando inseridos no contexto da actividade artesanal portuguesa”, escreve Andreia Figueiredo no texto de apresentação de “Espreita aqui”.
A autora do texto sublinha que “cada painel é orgulhosamente exposto, exprimindo o carisma e enaltecimento de um quotidiano que à partida seria vulgar. Num discurso mudo, as pinturas gritam aos quatro ventos os desabafos ou honras do orgulhoso proprietário da embarcação: cantam um louvor religioso, prestam homenagem a uma relevante personagem histórica ou à própria actividade profissional ou soltam pequenos tabus através de jocosos trocadilhos”.
Para Andreia Figueiredo, “é precisamente nesta característica classe das pinturas que reside um distintivo indício de inteligência popular. O jogo de linguagem formado pela complementaridade entre as pinturas e as respectivas legendas, notoriamente brejeiro, demonstra uma complexa construção humorística, claramente dotada de reflexão”.
Cardoso Ferreira
“Espreita aqui”. Até 6 de Dezembro, de terça-feira a domingo, das 10h00 às 12h00 e das 14h30 às 18h00, no Museu da Cidade de Aveiro (ao Rossio). Entrada gratuita
