Editorial 1 – Estamos entrados num mês em que o ritual fúnebre marca profundamente a vida de muita gente. Ainda que seja, para bastantes, de cariz apenas sociológico ou cultural, certo é que os cemitérios são, nestes dias, lugar de verdadeira peregrinação. Envolvida por muito comércio, por alguma superstição; mas também por muitas manifestações de carinho, de respeito e também de fé. A par com a afã do zelo (às vezes reduzido à vaidade!), caminha o silêncio, a meditação interior.
2 – A liturgia católica junta, em dias sucessivos, a Festa de Todos os Santos e o Dia dos Fiéis Defuntos. Não será por acaso! Certamente que o facto de o primeiro de Novembro ser dia santo (feriado nacional também) aproxima ainda mais estas celebrações, dado que muitos se deslocam aos seus lugares de origem nessa data, levando a que se juntem as comemorações na mesmo dia, não raro no mesmo local. E pressente-se que, onde há fé, esta proximidade não fere; onde há crença, esta afinidade respeita-se; e, mesmo no reino da indiferença, não se pasma com o facto.
3 – Como cristãos, embora a morte seja tremendamente forte e tenhamos dificuldade em lidar com ela, não podemos deixar de interiorizar o que diz Santo Agostinho, a propósito da morte da mãe: “Não fiquemos tristes por tê-la perdido; agradeçamos por tê-la tido”. “Quem morre não se afasta, interioriza-se” – diz o P. Vasco Magalhães. E continua: “Tal como Cristo que, pela Ressurreição, ficou mais perto, mais dentro, mais Deus connosco do que nunca”. Ao perder alguém da família ou amigo, esse ou essa que se me vai “experimento-a como algo que eu perco, mas, por outro lado, na realidade, é um alguém que se aproxima de Deus na morte e ressurreição; e, então, alcanço com essa pessoa uma comunicação muito mais íntima. Se ficamos só do lado da dor, da pena e do lamento, então ficamos mais pobres.”
4 – Celebrar Todos os Santos é reconhecer o chamamento de Deus a todos, a participar da vida em plenitude com Ele. É celebrar a certeza de que “uma multidão incontável”, de todas as raças, tribos, povos e línguas, purifica a sua vida no Sangue do Cordeiro e vive já a Vida em Deus. É reconhecer este “sistema de vasos comunicantes”, que nos faz a todos comungar dessa abundância de vida – os que estamos do lado de cá e os que estão do lado de lá. A alegria de estar com os que “triunfaram da morte” alimenta a esperança de que entre eles estejam muitos dos que evocamos com saudade. E, seguramente, iremos descobrindo que não perdemos os nossos; e aprenderemos a agradecer tê-los tido! Os ritos cristãos fúnebres são mais para quem está do lado de cá: para aprender a fazer o luto com sentido cristão; para aprofundar a comunhão dos santos! Porque o nosso Deus é um Deus de Vida, de vivos!
