Os Pastores têm a missão de ensinar, corrigir, exortar o Povo de Deus, na fidelidade ao Evangelho perene. Independentemente das circunstâncias favoráveis ou adversas da conjuntura civilizacional, do contexto de tempo e lugar. A sua voz profética não pode extinguir-se, ou omitir-se, sob pena de clamarem as próprias pedras do caminho. “Se vos envergonhardes de mim, também Eu me envergonharei de vós diante do Pai” – é uma palavra forte de Jesus, para todos nós, a começar pelos pastores.
O diálogo entre o Estado e as Igrejas é uma necessidade permanente, é um bem emergente – no geral! – nas sociedades democráticas. Na busca em comum, encontra-se sempre uma solução mais autêntica, desenha-se sempre um caminho mais favorável.
Mas o diálogo supõe a indiscutível alteridade, o reconhecimento do valor de cada um, a diversidade, a possibilidade e conveniência de cooperação. Não suporta tutelas nem superioridades. É bem diferente de negociações. Essas não são diálogo! São presunções unilaterais, que “concedem” a escuta dos outros, porventura para ceder em algum aspecto, mas sempre com uma margem mínima de aproximação, no pressuposto de que a posição que se tem é que é a razoável. O rumo está traçado! Poderá, quando muito, haver alguma pequena correcção!…
No nosso caso português, assim tem sido. “Em nome de uma sociedade tolerante e respeitosa”, fecham-se todas as entradas e saídas para o Transcendente e concede-se (concederá?…) o favor de uma réstia de esperança.
É importante que haja a ousadia de afirmar que existimos e que temos direito a voz, que somos sociedade e que damos contributos próprios para a vida da mesma, para a saúde integral das pessoas e do próprio tecido social. Que, portanto, não nos sentamos à mesa de negociações para implorar favores; que nos sentamos na mesa do diálogo para apresentar projectos e discutir os apoios devidos para os realizar.
O martírio tornou-se realidade quando a fé ousou afirmar-se deste modo, contrariando os abusos de autoridade do poder. É profética a palavra do Cardeal Bertone: “Face aos pretensos senhores destes tempos (acham-se no mundo da cultura e da arte, da economia e da política, da ciência e da informação), que exigem e estão prontos a comprar, se não mesmo a impor, o silêncio dos cristãos, o mínimo que podemos fazer é rebelar-nos com a mesma audácia dos Apóstolos”. “O que vimos e ouvimos isso não o podemos calar” – só esta é a estirpe dos verdadeiros apóstolos!
Que estas palavras foram um corajoso estímulo, lá isso foram, senhor Cardeal! E os pensamentos de Deus estão sempre muito acima dos pensamentos dos homens. Em consequência, os diálogos não podem deixar de ser a partilha ousada destas identidades distintas, na busca do caminho certo para as sociedades.
