Poço de Jacob – 95 Na História dos homens, incontável é o número dos que vivem sua vida ordinária de modo extraordinário. Compensam, na sociedade, a malvadez de outros tantos. Ao lado de pessoas que se distinguiram e não quiseram desaparecer sem deixar o seu legado à humanidade, encontramos Etty Hilesum. Está a interessar o mundo todo na última década, pelo facto de o seu diário, acabado de escrever às portas de Auschwitz, onde morreu em 1943, só agora ter sido publicado. Quis ser testemunha de que Deus continua a existir apesar dos horrores produzidos pela maldade dos homens e artimanhas do demónio.
Judia de raça, sem religião institucional na prática da sua vida, com uma vida sexual bem cheia de aventuras, cética por natureza, intelectual, ela foi descobrindo com a ajuda de um amigo que seguia a escola de Jung uma forma de espiritualidade que residia na descoberta de Deus a partir do descobrir-se a si mesma. É considerada um sinal para as religiões institucionais, às quais ela não se vinculou, de que mais que do que nos interrogarmos sobre quem é Deus, deveríamos chegar aí pela descoberta de quem sou eu… Bebeu de vários autores, também do Antigo e do Novo Testamento, de Santo Agostinho, entre outros, mas sobretudo da análise do seu interior, numa caminhada magnífica feita ao longo dos seus dois últimos anos de vida.
Morreu com 29 anos… No seu interior, começou a descobrir que o melhor que havia dentro dela tinha nome, e chamou de Deus a esse melhor. Um dia, cansada das restrições que os nazis iam fazendo à vida dos judeus de Amsterdão, onde vivia, viu-se, de repente, no tapete da casa de banho, dobrada sobre si mesma, impulsionada a estar de joelhos, para descobrir-se habitada por uma presença que a amava e a estimulava a ver o melhor da vida, o melhor do mundo e o melhor dos homens, ainda que esses fossem agressivos soldados da Gestapo. Começou a encantar-se com a sua descoberta, e, também com base em S. Paulo, o judeu Paulo, como ela o chamava, no capítulo 13 de Coríntios, decidiu recusar-se a odiar e a ter medo e passou a viver só de amor. Descobriu então a maravilha de estar acompanhada por si mesma como a melhor das companhias, porque dentro dela habitava Deus. Cada coisa que a rodeava era uma bênção Dele para o seu momento presente, pelo que começou a ver uma nova poesia na vida, um saber estar, preparando-se na vivência desse momento para os que se seguiriam, ainda que, como ela sabia, fosse levada para a terra enlameada e ensaguentada de um campo de concentração.
Ler seu diário, ler o livro agora publicado pelas Paulinas, em português e à venda na Livraria Santa Joana, em Aveiro, é embarcar com ela numa aventura que nos convida a ter continuidade na nossa própria descoberta do interior e fazer aí e a partir daí uma viagem sem regresso, ao longo da qual, como ela dizia, vamos contemplando a nossa própria paisagem da alma. Podemos assim ver que o que nos encanta na natureza e na vida, podemos gozar dentro de nós. Podemos perceber que o sentirmo-nos livres, leves e soltos é possível, mesmo que estejamos num vagão com 70 pessoas rumo às câmaras de gás de Auschwitz…
Impressionaram-me frases dela como a que dirigiu a uma amiga que a convidava a fugir ou a esconder-se. Ela respondeu que não tinha de fugir das garras deles, pois se sentia nas mãos de Deus.
Como Edith Stein, com quem ela se cruzou no campo holandês de Westerbork, sentia-se solidária com o destino do seu povo e não poderia fugir sabendo que outros não o conseguiram fazer. Se, além de ajudar os outros a sobreviverem a cada momento, ela pudesse testemunhar que Deus habitava ali, onde parecia que não estava, a sua missão estaria cumprida.
Disseram de Edith Stein que quando passou dois dias nesse campo de concentração parecia que um anjo andava pelo campo. Etty viveu ali quase meio ano, numa dedicação absoluta aos velhinhos e crianças, especialmente. Diz ela no seu último escrito que entrou com a sua família nos vagões da morte cantando. Penso que é nestes limites do absurdo que a fé se manifesta mais pura e mais autêntica.
Leiam Etty. Ela está também abundantemente documentada na Internet. E aprendamos com ela a chorar de gratidão pelos dons de Deus, agarrada ao arame farpado de um campo depois de ter presenciado o comboio que levava para a morte mais de mil judeus naquele dia…
Deixo esse testemunho recolhido do seu diário, à luz do arco-íris de que falamos há dias. Descobrir Etty é um dom de Deus. Saboreai-o. Carta a Maria. Agosto de 1942: “Querida Maria, esta manhã havia um arco-íris sobre o campo, e o sol brilhou sobre as poças de lama. Quando me dirigi aos barracões-hospital, algumas mulheres gritaram: «Recebeu boas notícias? Parece tão alegre…». Na resposta eu não conseguiria satisfazer essas mulheres, falando-lhes do arco-íris, pois não? No entanto, essa era a única razão da minha alegria”.
Vitor Espadilha
