Entrevista O P.e António Vaz Pinto esteve no Centro Universitário Fé e Cultura, na noite do dia 7 de Abril, a convite do Instituto Superior de Ciências Religiosas (ISCRA). O antigo Alto Comissário para as Minorias Étnicas, criador dos Leigos para o Desenvolvimento e introdutor do Banco Alimentar em Portugal, actual director da revista científica Brotéria, foi aluno de Joseph Ratzinger em Regensburg (ou Ratisbona, na Alemanha). Texto de Jorge Pires Ferreira a partir das afirmações de P.e António Vaz Pinto
Não foi para provocar polémica que o P.e António Vaz Pinto, jesuíta, disse a frase escolhida para título. E para que não se pense que a frase está indevidamente isolada, eis o contexto: a história dos papas indignos, como Alexandre V, que foi Papa de 1492 a 1503 (e que promoveu a assinatura do Tratado de Tordesilhas, que dividiu o mundo a descobrir entre Portugal e Espanha). O seu papado foi de grande corrupção moral. “Um verdadeiro bandido”, disse. Mais tarde, o pontificado de Alexandre VI seria usado pelos protestantes como argumento para a separação da Igreja católica. Mas houve mais papas imorais ao longo da história, pelo que o padre jesuíta afirmou a frase do título: “Eu não tenho fé nenhuma nos papas. Se me disserem que um Papa fez isto ou aquilo, coitado. Eu dormiria descansadíssimo. Ele é que não. Eles são tão frágeis como nós. E a história prova-o bem. Adorar o Papa é papolatria”. É de evitar.
Polémica prejudicial
O encontro realizado no Centro Universitário estava previsto muito antes da polémica actual, pelo que o convidado afirmou logo de entrada: “Não viria aqui por causa da polémica [da pedofilia]. Não é apropriado, é quase ridículo e é prejudicial”. No final, acabaria por realçar a forma manipuladora como os abusos sexuais por parte de membros do clero católico têm sido mediaticamente tratados.
João Paulo II e Bento XVI
Bento XVI “é uma pessoa mais suave” do que João Paulo II, que “era possante”. Era uma “força da natureza”. “Gostávamos de um João Paulo II renovado, recauchutado” e agora temos alguém “que na nossa imagem é mais fraquinho”. Se reagimos mal é porque também somos xenófobos, no sentido de “estranhar o estranho”. Quando Bento XVI foi eleito, as reacções foram muito infantis”, algumas “ridículas” e outras “entre o hostil e curioso”.
Fé, só em Deus
“Há coisas importantes que escolhemos, como a mulher, o marido, os amigos. E há outras que não escolhemos, como os filhos ou os pais. Era-me completamente indiferente o Papa ser este ou aquele. Isto não vai de simpatias. [Vai por esta atitude:] «Vamos entregar isto a Deus». Os cristãos não têm fé no Papa ou nos bispos. Têm fé em Deus. Se temos fé no Papa, estamos completamente enganados. Jesus Cristo deu a Pedro a infalibilidade, não a impecabilidade”.
Para quê o papado?
P.e Vaz Pinto realçou que Jesus Cristo instituiu o apostolado nos 12 apóstolos (que, simbolicamente, remetiam para as 12 tribos), o discipulado num grupo mais largo de seguidores e o primado em Pedro. “O primeiro gancho da fé cristã é a fé de Pedro, numa sucessão de elos com dois mil anos de história”, a sucessão apostólica.
Marcante no Vaticano II
“Joseph Ratzinger foi muito marcante no Concílio Vaticano II como teólogo. Depois foi arcebispo de Munique, cardeal e prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, herdeira da Inquisição”. “Fez o que lhe competiu. Muitos dos que criticaram o seu trabalho não merecem crédito”.
Bento XVI e São Bento
Bento XVI “parece querer uma igreja mais reflexiva, mais meditativa, com mais espiritualidade para o mundo”. O seu próprio nome revela “apreço por São Bento”, fundador dos beneditinos, patrono da Europa. “As suas encíclicas são mais curtas, possivelmente mais bem elaboradas”.
Intervenções menos felizes
“Talvez o Papa tenha tido uma ou duas intervenções menos felizes”. “Em Regensburg [no discurso aos universitários, em 12 de Setembro de 2006], houve ingenuidade”. “Como se ele se atirasse aos muçulmanos”, com um discurso que defendia precisamente a fé e a razão têm de ser aliadas para evitar a violência…
Papa do ecumenismo
Bento XVI tem dado grandes passos ecuménicos com várias igrejas. “Vai favorecer muito as relações com os ortodoxos. Com os luteranos e anglicanos, lá chegaremos. Com os do Oriente [já que os passos são mais fortes e sustentados], pode vir amanhã nos jornais uma notícia, «O Patriarca de Constantinopla…», que acabe com séculos de divisão. As excomunhões já foram levantadas”.
A pedofilia
“Houve casos ocultados nos EUA, na Irlanda, na Alemanha”. Mas agora “há mais pânico do que factos”. Propagou-se uma ideia de epidemia, de pânico. “Sou padre há 36 anos e não encontrei um padre [abusador] ou uma vítima de pedofilia”. “A pedofilia é um fenómeno lamentável de toda a sociedade. É uma vergonha. Exige actuação com toda a força”.
Bento XVI e os meios
de comunicação social
“Os Papas quando são eleitos também têm um «estado de graça», como os políticos. Bento XVI não o teve”.
