A eucaristia tem uma inegável dimensão cósmica, envolve todas as realidades criadas, desvenda o sentido e marca o rumo a toda a criação, abre horizontes de plenitude a toda a realização humana. É, de facto, o sacramento que melhor concentra a teologia das realidades terrestres e está mais relacionado com as ciências do universo, designadamente com as ambientais e ecológicas. Esta dimensão é resultado da presença original do Espírito de Deus nos bens criados e na natureza humana e de Jesus ressuscitado no pão e no vinho, frutos da terra e do trabalho.
Esta perspectiva abre-nos “à missa sobre o mundo” que Teilhard Chardin, padre jesuíta, teólogo e investigador científico, inclui no seu maravilhoso livrinho “O hino do Universo”. É o próprio autor que narra como surgiu esta reflexão.
Um dia andava nos seus trabalhos em pleno deserto. É o domingo da Transfiguração do Senhor. Ao querer celebrar a eucaristia, dá conta que não tem pão nem vinho. Então, num rasgo de génio inspirado, faz uma acção de graças em que oferece a Deus o cosmos inteiro, pedindo-Lhe que sacramentalize toda a criação.
Este gesto feliz encontra o seu apoio mais consistente nos ensinamentos da Igreja, designadamente em certas preces litúrgicas, e suscita reflexões teológicas cheias de interesse pastoral. Sirva de exemplo a IV Oração Eucarística em que, do prefácio ao ámen conclusivo, a criação inteira é apresentada como acção de Deus Pai em crescente dinamismo até atingir a plenitude em Cristo, sob o impulso renovador do Espírito. É esta criação que, liberta da corrupção do pecado e da morte, se associa ao cântico novo que os justos entoarão eternamente.
A reflexão pastoral faz-nos ver outros elementos que brotam da eucaristia. São eles os dons apresentados, o sentido do trabalho e o alcance da consagração da realidade.
Os dons oferecidos convertem-se no corpo e sangue de Cristo. Ele é a verdadeira oferenda que quer associar-nos a si, de forma definitiva. Mas os dons são fruto da terra e do trabalho e, por isso, desvendam situações interpelantes. Como está a terra querida por Deus como um jardim para todas as pessoas?! Que olhos a contemplam e que ouvidos perscrutam os seus segredos em profundidade?! Que coração acolhe os seus gritos de angústia e de opressão?! Quem se preocupa com a conservação dos seus recursos escassos e não renováveis?! Em que estado a receberão as gerações futuras, nossas herdeiras naturais?!
O pão e o vinho evocam estas situações e constituem uma espécie de memorial da terra-mãe e das grandes correntes ideológicas que a dominam. Deixam também em aberto a urgência de uma educação para a sustentabilidade do sistema económico e ecológico. O pão e o vinho, dons que Deus partilha, comportam um apelo e urgem uma alternativa.
Além de frutos da natureza, estes dons provêm do trabalho humano. E aqui, o alcance eucarístico ainda é mais interpelante. São necessários olhos para contemplar a beleza da obra feita e o engenho de quem a moldou, para verificar a justiça laboral em todas as suas dimensões, para apreciar o esforço e o envolvimento de tantas pessoas que não desistem de humanizar o mundo do trabalho e de procurar garantir a produtividade em todos os sectores. Estes olhos abrem-se a uma nova dimensão: o trabalho coopera com a acção do Espírito a fim de que surja a nova humanidade, simbolizada na eucaristia.
Os dons são trazidos ao altar, qual mesa da humanidade, onde Deus quer alimentar todos os seus filhos. Celebrar a eucaristia, sem entrar no projecto de Deus, é cerimónia despida de sentido. Estar na eucaristia, sem assumir a sorte da humanidade, é rito presencial de quem prefere ser espectador e não agente. Participar na eucaristia é cultivar os sentimentos de Jesus Cristo, que se faz corpo entregue e sangue derramado por um mundo novo, é aprender na sua escola a viver, cada vez mais, um amor de doação em prol de toda a humanidade.
