Exercitação quaresmal

Os cristãos iniciam, hoje mesmo, o tempo de “exercitação quaresmal”, o tempo de preparação para viver uma Páscoa de alegria libertadora. A Quaresma é, na verdade, esse tempo oportuno de conversão, que nos transforma interiormente, tornando-nos capazes daquilo que fomos descurando e pensámos, talvez, que já nem seríamos capazes de fazer.

A exercitação é treino. A Igreja sempre propõe as vertentes desse treino: oração, jejum e esmola. O treino há-de ser programado, para poder produzir o seu fruto, que será, naturalmente, uma melhoria de forma. No caso, uma proximidade cada vez mais profunda de Deus, um notável hábito de vida sóbria, uma comunhão perfeita de vida com os irmãos. Atingidos estes objectivos por muitos cristãos, será sensível, nas nossas comunidades, a Páscoa libertadora de Jesus Cristo.

Bento XVI centra a sua mensagem numa das vertentes da exercitação quaresmal: a esmola. Palavra que, para muitos, pode cheirar a “comiseração” doentia ou a estratégia para dominar pela submissão daqueles a quem se dá. Para obviar a ambiguidades, o Santo Padre tem o cuidado de expor sem rodeios as exigências e o alcance desta exercitação da esmola.

O acto de caridade pela esmola, para além de ser uma “forma concreta de socorrer quem se encontra em necessidade”, pode transformar-se em prática ascética que liberte da afeição pelos bens terrenos, educando no reconhecimento do valor social dos bens, exigido pelo princípio do seu destino universal, e levar a reconhecer que o dever de justiça precede o gesto de caridade.

A esmola, como expressão concreta e genuína da caridade, exige conversão interior ao amor de Deus, reconhecimento da sua dimensão universal, privilegiando os mais débeis, e gera a consciência de que possuir é ter a responsabilidade de administrar o que se recebe de Deus, tornando-se intermediário da Sua providência junto do próximo.

Dar com generosidade e com discrição é o princípio de uma profunda transformação social. Quem dá de maneira cristã não dá as sobras: dá do que faz falta; dá-se a si próprio! E fá-lo não apenas de modo a que a esquerda não saiba o que faz a direita, mas de maneira a que nem a própria direita saiba o que dá!

É que dar assim é repartir, é desfazer as diferenças abissais entre quem tem e quem não tem. E, sem toque de trombetas, o dar não escraviza quem recebe; antes lhe devolve a dignidade. Não se reclamam louros, na praça pública, por parte de quem fez o bem. Consolida-se a comunhão fraterna. E, se nos situamos no âmbito da comunidade cristã, dá-se consistência à própria comunhão eclesial.