No Navio Museu Santo André “Dizer o sal” é o título de uma exposição fotográfica, da autoria de Jaimanuel Freire e Sandra Rocha, com texto de Alice Sarabando, que está patente ao público, até ao final de Julho, no Navio-Museu Santo André, o antigo navio da pesca do bacalhau que se encontra atracado junto ao Forte da Barra, na Gafanha da Nazaré.
Álvaro Garrido, director do Museu Marítimo de Ílhavo, que tutela o Navio Museu Santo André, sublinha que “compor um díptico de fotografias sobre o sal num belo e odoroso porão de salga de um velho arrastão bacalhoeiro pode parecer irónico ou talvez redundante. Sendo um painel composto de imagens coloridas e dominadas por um olhar de naturalismo paisagista – o de Jaimanuel – e outro por imagens escuras, quase místicas, impressas em cuidadosos pretos e brancos – o de Sandra Rocha –, estaremos perante uma exposição original que num só espaço combina duas formas diferentes de Dizer o Sal. E dizê-lo implica evocar um património de múltiplos sentidos que, embora persista no imaginário de bilhete-postal das terras lagunares, se vai olvidando na memória das gentes, sabotando reais identificações entre modos de vida que cederam ante a mudança das técnicas de conserva dos alimentos e ante os próprios modos de organização do labor humano”.
Embora as fotos dos dois autores “presumam nostalgia das vidas com sal e das marinhas povoadas de homens de pele escura que continuam a habitar o imaginário da nossa região”, Álvaro Garrido realça que o trabalho de Jaimanuel “evidência um sentido pictórico, ao passo que o de Sandra Rocha exprime uma dimensão poética e filosófica. No primeiro, a extracção do sal grosso põe em relevo a moldura natural e o elemento humano; no segundo, sobressai o próprio cristal, qual místico fragmento de rocha pleno de mistérios e de potencialidades vitais”.
Como o próprio Jaimanuel Freire refere, “estas foram, infelizmente, as últimas imagens recolhidas nesta marinha: a «Desgarrada»”, marinha que, também ela, e a exemplo da imensa maioria de marinhas da Ria de Aveiro, deixou de produzir sal. Estas fotos são o último testemunho dessa actividade dos marnotos nessa marinha.
C.F.
