Faleceu o Padre Redondo

Joaquim Mendes Vaz Redondo (1920-2009) Na manhã do passado dia 12, na freguesia de S. Salvador de Ílhavo, faleceu o Padre Joaquim Mendes Vaz Redondo, que contava oitenta e oito anos e sete meses de idade. Nos últimos tempos, esteve internado no Lar de S. José, onde anteriormente se votara ao atendimento espiritual dos idosos. As exéquias foram celebradas no dia seguinte na igreja matriz, com Eucaristia presidida por D. António Francisco dos Santos e concelebrada por D. António Baltasar Marcelino, D. António dos Santos e dezenas de sacerdotes; seguidamente realizou-se o funeral para o cemitério local.

Tendo nascido na cidade de Guimarães em 8 de Novembro de 1920, frequentou o Seminário Franciscano de Santa Teresinha, em Felgueiras (1932-1940). Em 1941, tendo acompanhado os pais, passou a residir em Ílhavo; então, como aluno da Diocese de Aveiro, cursou os estudos de Teologia no Seminário de Cristo-Rei, nos Olivais – Lisboa (1941-1945). Recebeu a ordenação de presbítero em 29 de Junho de 1945, na igreja matriz de Pardilhó, sendo celebrante o arcebispo-bispo de Aveiro, D. João Evangelista de Lima Vidal.

O Padre Joaquim Redondo exerceu, com muito zelo e grande dedicação, diversos trabalhos pastorais de que foi incumbido: – 1945-1961 e 1962-1970, professor no Seminário de Santa Joana Princesa; – 1946-1975, capelão nos lugares de S. Brás da Quinta do Gato, de S. Sebastião de Aradas e de Nossa Senhora da Conceição da Quinta do Picado; – 1947-1983, secretário da Chancelaria Diocesana; – 1983-2008, Chanceler da Cúria Diocesana de Aveiro.

Como colaborador da paróquia de Aradas, auxiliando o vigário Padre Daniel Correia Rama no que visse ser útil, incentivou e acompanhou activamente a construção da nova igreja de S. Sebastião que, obedecendo ao projecto do arquitecto portuense Santos Malta e já testemunhando as normas emanadas da reforma do Concílio Vaticano II, foi inaugurada em Agosto de 1972 por D. Manuel de Almeida Trindade. Ocupando sempre o tempo de forma abnegada, ainda coadjuvou na sua paróquia de S. Salvador, tanto na celebração da Eucaristia, como na preparação musical e no acompanhamento a órgão dos coros litúrgicos.

Efectivamente, o Padre Redondo manifestou-se sempre como um sacerdote pronto a ajudar em trabalhos pastorais. Todavia, ao longo de sessenta e um anos, tornou-se deveras notável o seu serviço solícito e eficaz na Chancelaria Diocesana, primeiro ao lado de Mons. Manuel Miller Simões, seu primeiro responsável. Conhecendo em pormenor os princípios canónicos e as normas diocesanas, foi um cooperador fiel e precioso dos nossos cinco Bispos, um conselheiro amigo de muitas pessoas e um colega atento aos problemas dos sacerdotes. A Diocese de Aveiro muito lhe ficou a dever na estruturação dos seus Serviços.

Um outro aspecto, que não posso deixar de referir na personalidade do Padre Redondo, foi o seu exemplar desprendimento material; é que ele entendia que não poderia pregar o amor sem amor. Ouvi-lhe isto em frequentes ocasiões; e lembro sobretudo aquela em que ambos almoçávamos juntos num certo restaurante. Como prova, eu próprio testemunhei os frequentes e generosos donativos em favor do nosso Seminário, além de outros; «recebi da Igreja – dizia – à Igreja e ao Seminário quero dar tudo o que não gastei.»

Conheci o Padre Redondo no mês de Outubro do recuado ano de 1945, quando eu começava a cursar o quinto ano de estudos preparatórios no Seminário de Santa Joana, na velha casa situada junto ao Parque do Infante D. Pedro. Leccionava ele as aulas de formação religiosa e moral e ministrava as primeiras noções de música e de solfejo. Recordo a impressão que me causou a sua elevada estatura e a sua paciência connosco, jovens seminaristas, e bem assim a alegria da juventude dos seus vinte e cinco anos.

Há pormenores na minha formação que nunca esquecerei; o Padre Redondo marcou-me sobretudo com o seu exemplo e com os seus conselhos, mas também com o seu companheirismo. Quantas vezes me encorajou nas tarefas de que eu estava ou era encarregado! É um amigo que jamais olvidarei. Sentindo a sua morte, tenho a certeza, que me vem da fé, de que este sacerdote, que tanto amou a nossa Igreja Aveirense, continuará a assistir-nos do Além.

Na ocasião do seu falecimento, cumpro o dever de apresentar os meus sentimentos ao nosso Presbitério e à sua família. Na recordação saudosa, lembro-o ao Senhor da Vida. Paz à sua alma. Como afirma o Apocalipse (14, 13), «felizes os mortos que morrem no Senhor; descansam dos seus trabalhos, porque as suas obras vão com eles.»

Mons. João Gaspar

“Alma sacerdotal” que nos

“enobrecia com a sua delicadeza”

O Padre Redondo era um amigo. Que se ocupava de nós, das coisas que nos faltavam e dos nossos. Nunca parti da Casa Episcopal sem passar pela Cúria, mas também ele nunca me deixava partir nem chegar de casa sem se ocupar e preocupar com a Diocese, com a minha Mãe e comigo. Mesmo no leito de dor. Dava valor à amizade e enobrecia-nos com a sua delicadeza. Era esteio e amparo.

O Padre Redondo era um colaborador leal. Por aquele exíguo espaço da Cúria passava diariamente a vida da Diocese. Ele estava sempre ao lado do bispo como se esse fosse o seu dever indeclinável, nunca traído nem questionado.

Valorizava gestos insignificantes sem reclamar direitos que o tempo e a missão lhe conferiam. Realçava a importância de decisões tomadas, mesmo quando era evidente que o mérito das soluções encontradas era também seu. Desculpava-me ausências prolongadas mesmo sentindo necessidade da presença contínua.

Sobre a sua fronte de sofrimento tracei amiudadas vezes a cruz da bênção e do perdão em gestos de redenção que sempre me agradeceu.

O Padre Redondo era uma alma sacerdotal: a alma de um padre fiel e feliz por ser padre.

Excerto da homilia do Bispo de Aveiro na missa das exéquias