Fátima e os dois primeiros pontos

Poço de Jacob – 82 Quando vou a Fátima com a minha paróquia, começo sempre na Igreja onde os pastorinhos foram baptizados. Foi ali que tudo começou. A fidelidade às promessas do Baptismo é que nos faz santos, além de, naquela igreja, a imagem da Virgem do Rosário ter sorrido a Lúcia no dia da sua primeira comunhão. Foi naquela igreja que Francisco viveu, diante do sacrário, a intimidade com Jesus escondido, pois o que mais o impressionou nas aparições foi ter mergulhado na luz de Deus que Maria fez o pequeno experimentar em 13 de Maio, quando Maria abriu os seus braços e os encheu da luz que não queimava, fazendo Jacinta exclamar: “Trago lume no peito”. E naquela igreja Maria apareceu a Jacinta para lhe ensinar a rezar o terço. Ali, às portas de ser homem, Francisco, calculista, foi contemplativo de Deus na natureza que se santificou na sua masculinidade enquanto menino que meditava profundamente os mistérios do Alto, sem deixar de ser rapaz. Teria sido padre, diz a Lúcia. Jacinta era plenamente mulher. Ela era a expressão do acolhimento que gera vida. A sua paixão eram os pecadores, o Santo Padre… Os dois pastorinhos viviam o seu ser homem e mulher baptizados no Coração de Maria que os lançava na luz que é Deus, como eles diziam.

Viveram virtudes heróicas e morreram heroicamente, até como confessores da fé, pois não recuaram diante da hipótese de martírio, e isso é o que chamamos “confessor da fé”. Lúcia era a mulher do “segredo do rei”, como ela diz numa carta: “O segredo do rei guarda-se no coração”. Maria escolheu-a porque Lúcia gostava do silêncio e era, por isso, prudente e ponderada, sem deixar de ser a menina alegre que aprendeu o caminho do Céu no colo do seu pai, como ela diz nas suas segundas memórias (recomendo a leitura da primeira e da segunda e os apelos de Fátima escritos por ela).

Os cinco pontos são o resumo, com base no Evangelho, do essencial da Mensagem. Vamos falar de dois neste texto e dos restantes no próximo. Considero que o Coração de Maria, mais que um órgão de Nossa Senhora e seus sentimentos em relação a nós, é o próprio Jesus. Os bizantinos, a esse respeito, com base em Isaías 7, criaram o ícone da Virgem do Sinal por aí se dizer: “O sinal ao rei Acaz: a Virgem conceberá….” O ícone é de Bizâncio e tem Maria orante de braços abertos e o Menino num círculo à altura do seu peito. É o Coração de Maria que em Fátima veio com a sua coroa de espinhos da Paixão. Por isso, o primeiro ponto é Reparação – como consertar o que está estragado. Cristo liberta-nos do pecado original, restaurando em nós a imagem original de Deus, como que alterada pelo pecado dos homens. Ele recapitula tudo em Si. Ele é a Imagem do Deus invisível, diz S Paulo. Por isso, todo o cristão, pelo Baptismo, procura aspirar a que Deus restaure nele a sua inocência original. E ao mesmo tempo sente-se comprometido em reparar os pecados dos homens com sacrifícios e orações. Vemos isso na oração do Anjo, “Peço-Vos perdão para os que não crêem…”, nas palavras de Maria e no fim de desagravo dos primeiros sábados, por exemplo.

Como seguimento lógico, o segundo ponto de Fátima é Conversão. Converter é voltar-se para dentro ou à origem. O Beato João Paulo II, no seu livro “Tríptico Romano”, diz que para chegar à fonte de um rio é preciso remar contra a corrente do mesmo. Trata-se do esforço de conversão de cada homem. Em Fátima, Maria condicionou à conversão as curas pedidas por Lúcia: Se se arrependerem ficarão curados… Que se convertam e peçam o perdão dos seus pecados, disse Maria em algumas aparições. De que vale ir a Fátima pagar promessas (que são actos imperfeitos no caminho espiritual, pois quem crê não pode prometer nada a Deus, mas tudo espera dele, incondicionalmente, e não: “se me curas dou-te isto ou aquilo”. E se não curar?)? Mais que isso, a ida a Fátima deve implicar mudança de vida e vida em graça de Deus, pela prática dos sacramentos, sobretudo Missa e Confissão, e pelas obras de caridade. Só assim Fátima transforma, como já sabemos pelas palavras de Jesus ao longo de todo o Evangelho.

P.e Vitor Espadilha