Poço de Jacob – 86 Quando cantamos o “Avé de Fátima”, há duas estrofes misteriosas quanto à situação da comunicação da mensagem. Quando e onde disse Maria isto? “Falou contra o luxo, / contra o impudor,/ de imodestas modas, /de uso pecador”. E “Disse que a pureza / agrada a Jesus. / Disse que a luxúria./ ao fogo conduz”.
Perguntei a um grupo de 50 pessoas, há dias, a caminho de Lisboa e Fátima, em peregrinação, o que era a luxúria. Quase todos disseram que tinha a ver com luxo e vaidade. Alguns sabiam que era um dos pecados capitais, segundo o catecismo. Mas luxúria é todo o pecado ligado aos sexto e nono mandamentos, os pecados relacionados com o sexo.
Nossa Senhora falou de sexo, em Fátima? Falou! Quando? Em Lisboa, a Jacinta, no quarto que a menina ocupou no mês em que morreu e no hospital D. Estefânia. Ainda hoje esse quarto existe e eu vou lá algumas vezes. Pertence às Irmãs Clarissas de clausura, no Mosteiro do Imaculado Coração de Maria, mesmo em frente à Basílica da Estrela, a qual é um dos primeiros monumentos do mundo feitos para o Coração de Jesus, depois das aparições de Paray-le-Monial (França) a Margarida Maria Alacoque, no séc. XVII.
Jacinta não entendeu o que Maria dizia. Também em Julho de 1917 pensaram que a Rússia era uma mulher muito má. Ali, em Lisboa, em 1920, Maria disse à pequenina, que o pecado que mais almas leva para o inferno é o pecado da carne. Ela pensou em carne que se cozinha… Era demasiado pura para entender. Mas transmitiu o conjunto de ensinamentos que a esse propósito lhe comunicou Maria, bem na linha dos ensinamentos que mais tarde seriam dados a Alexandrina de Balazar, Faustina Kowalska, Padre Pio, entre outros místicos. E disse que virão umas modas que ofenderão muito a Deus. Pelo luxo ou pela indecência, a moda foi-se desenvolvendo ao longo do séc. XX na exploração sobretudo da mulher enquanto objecto de desejo numa sociedade dominada por homens.
Explora-se a natureza feminina, que gosta de se mostrar, e a do homem, que gosta de ver, ainda que, no mundo animal, quem se mostra seja o macho na hora do acasalamento. Da praia à rua, pouco a pouco a roupa foi perdendo o seu sentido de cobrir e proteger o corpo e até o seu valor simbólico de quem se reveste de Deus, para se mostrar o corpo, pois dizem que “o que é bom é para se ver”. Mas esquecem que a líbido humana se sente estimulada, também pelos olhos, e o pecado acontece, dando origem a mentes por vezes doentias e até assassinas. O Vaticano tirou o véu da mulher que dantes se cobria para rezar, como acontece na igreja ortodoxa, ou com o homem judeu. Mas não autorizou mais nada no que se refere ao interior das igrejas e nos momentos celebrativos. Os homens dantes ocupavam lugares dianteiros nas igrejas para “não pensarem mal”. Muita coisa foi suprimida para uma maior igualdade, e ainda bem, mas o nosso tempo, depois da revolução sexual, nos anos 60, e hoje especialmente, assiste estupefacto ao desfile de nudez, por vezes descarada, de mulheres em casamentos, baptizados e até na simples celebração dominical.
Os padres têm de distribuir a comunhão diante de decotes provocantes para a sua condição de homem. Mesmo que tenha a sua sexualidade integrada numa vida de celibato, não deixa de ser homem, tentado a tudo o que os outros homens sentem como tentação. Por vezes, se chamamos a atenção, são os maridos e os namorados ou os pais os primeiros a ficarem ofendidos, como se exibir a sua mulher fosse alguma espécie de coisa digna. As conferências episcopais calam-se. O povo praticante tem medo de falar e os padres que falam são considerados antiquados e maus, por vezes condenados até pelos seus próprios colegas de presbitério.
O sentido de pecado ou a ocasião de pecado desapareceu do seio da própria igreja e o relativismo moral atinge-nos doentiamente. Onde vamos parar? Não sei. Só sei que temos de pregar, também aí, a tempo e a destempo. E se tivermos medo do juízo dos homens, teremos de nos ver com o juízo de Deus.
O nosso povo é muito bom. Se tudo lhe for explicado acata e entende. Se as modas vão ofender muito a Deus Nosso Senhor, fica a pena e o receio de que o pecado que ela promove condene eternamente os homens, nós, que fomos feitos para as delícias do Céu.
P.e Vitor Espadilha
