Confesso que, após quase cinco anos a viver no Brasil, mesmo tendo regressado fisicamente a Portugal, continuo muito interessado em tudo o que se vai passando na Pátria Grande, Latinoamerica querida.
Assim, tenho acompanhado com especial atenção e preocupação, ao longo do último trimestre, o que está a acontecer nas Honduras, com o golpe que levou à destituição do presidente eleito, Zelaya, e a tomada do poder por Micheletti, impulsionando o regresso das forças oligárquicas que durante o século XX – salvo alguns curtos hiatos temporais de relativa normalidade constitucional – dominaram o país.
Para que se possa perceber, resumidamente, o que aconteceu, convém situar as Honduras, um país montanhoso de 140 mil km², localizado na América Central, onde vivem cerca de 5 milhões de pessoas. A maioria da população é mestiça, fruto da mistura entre os descendentes dos colonizadores espanhóis e os indígenas autóctones, sobretudo Maias e Toltecas, mas também afro-americana, resultado dos mais de três séculos de tráfico de escravos.
País independente de Espanha desde 1821, Honduras raramente viveu em paz democrática. Das lutas internas entre conservadores e liberais às ingerências estrangeiras na economia do país, passando pela influência quase constante dos militares que ora ocasionava golpes de estado ora orquestrava governos autoritários, de tudo um pouco Honduras foi sofrendo. Sendo que, quem mais tem sofrido tem sido o povo. Quase dois terços da população vive abaixo do limiar da pobreza, tornando Honduras o antepenúltimo país em índice de desenvolvimento de todo o continente americano.
Já no início deste século, o país tentou entrar num período de maior normalidade democrática, com o sistema eleitoral a ditar uma alternância entre o conservador Maduro e o liberal Zelaya. Porém, em pleno governo deste último, a 29 de Junho deste ano, as forças oligárquicas, receando perder os seus privilégios e o domínio sócio-político que sempre detiveram, resolveram dar um golpe de estado, prendendo o presidente eleito e suspendendo as garantias constitucionais do povo.
Apesar da comunidade internacional, com especial ênfase para a Organização dos Estados Americanos, ter condenado, desde o início, o golpe que colocou Micheletti no poder nas Honduras, o certo é que, três meses volvidos, a situação não se inverteu. Antes pelo contrário, parece que toma forma a ideia de que umas eleições improvisadas, com candidatos “arranjados”, marcadas pelos golpistas para Novembro, devolverão a legitimidade constitucional ao país.
A própria comunicação social ocidental, em particular a europeia, não tem dado ao caso a importância que se requeria. Mais, as escassas notícias que têm sido veiculadas, longe de descrever o que se está, efectivamente, a passar, têm sistematicamente apresentado o caso como “Zelaya, presidente pertencente ao círculo próximo de Hugo Chávez que se está a confrontar com a oposição legítima de uma parte do país”. Visão errada, como nos mostra o relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, as tomadas de posição de membros da Igreja Católica hondurenha, como o bispo de Copán – voz de tantos outros líderes cristãos que convivem com o povo mais pobre – ou as denúncias do Prémio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel.
O arquitecto argentino, militante dos Direitos Humanos laureado em 1980, conhece, na 1.ª pessoa, a sangrenta história recente da América Latina e teme que a destituição de Zelaya abra um precedente que possibilite o retorno das oligarquias e com elas os velhos poderes ditatoriais que tanto martirizaram a América Latina. De pensamento sóbrio e esclarecido, como é sua característica, veio a público apelar para que a comunidade internacional, solidariamente, defenda a legitimidade democrática e “impeça a instauração nas Honduras, ou em qualquer outro país, de novas ditaduras militares”.
Por isso senti que, apesar da distância a que os nossos leitores se podem achar da América Latina, deveria fazer eco ao apelo de Pérez Esquivel. Para que saibamos, realmente, o que se está a passar, para que a opinião pública da Europa possa ter uma outra visão do que está a acontecer e para que, se possível, ainda se consiga evitar que este golpe antidemocrático possa vingar nas Honduras e com ele fazer retroceder em várias décadas as conquistas democráticas que a América Latina, se bem que a muito custo, tem vindo a conseguir.
