Nenhuma virtude caracterizou tanto Félix de Nicósia como a humildade, que, como diz a espiritualidade clássica, é um dos nomes da verdade. Por isso, quem se reconhece humilde com sinceridade conhece-se a si próprio.
Nascido em 1715, no seio de uma família pobre na empobrecida Sicília, Tiago Amoroso, era esse o seu nome de batismo, filho de Filippo Amoroso e Carmela Pirro, seguiu as pegadas do pai e tornou-se sapateiro. Contudo, a arte de fazer e consertar sapatos foi adquirida junto de Giovanni Cavarelli, já que Filippo Amoroso morreu no dia 12 Outubro anterior ao nascimento do terceiro filho, Tiago.
Como a maioria dos sicilianos daquele tempo, o jovem Tiago não foi à escola. Nunca chegou a aprender a ler ou escrever. Mas trabalhava perto do convento dos Capuchinhos e desde sempre admirou a austeridade alegre dos frades, a pobreza libertadora, a penitência e oração sem cara triste, o espírito missionário. Tentou, por isso entrar para a ordem quando fez 20 anos. Sendo analfabeto, não podia ser ordenado, nem era isso o que ele queria. Bastava-lhe ser irmão. Não conseguiu. Tentou durante uma série de anos e a resposta foi sempre a mesma: não. Até que em 1743 o seu pedido foi ouvido pelo Provincial de Messina, numa visita a Nicósia. É então, no noviciado de Mistretta, que assume o nome de Félix.
Como frade, continua a consertar calçado, trabalha no quintal e na cozinha, é enfermeiro e porteiro e, sobretudo, dedica-se a pedir esmolas, ou seja, é esmoleiro. Andar de porta em porta a pedir esmolas, mais do que receber dos ricos, permitiu-lhe dar. Dava bens aos pobres, dava bons conselhos a todos e realizava prodígios que lhe deram a fama de milagreiro. Se alguma vez recebia uma resposta áspera, respondia como bom franciscano: “Seja por amor de Deus”. Bento XVI recordou na canonização que este frade “amava repetir [aquela expressão] em todas as circunstâncias, alegres ou tristes”.
No convento, era notado sobretudo pela obediência e humildade. Diz-se que aceitava com grande humidade as humilhações impostas pelos colegas de convento – o que, contudo, não abona nada em favor da comunidade. Outros tempos. E dizia de si próprio que era mais feliz do que o burro que o acompanhada pelos caminhos da Sicília. Durante o dia, ambos se alegravam com as ofertas. Mas durante a noite – dizia – tinha uma cama muito melhor do que a do burro, seu companheiro de trabalho.
Tinha uma grande devoção pela Eucaristia, passando horas em frente ao sacrário, geralmente depois das longas e duras caminhadas de cada dia. Incapaz de ler ou escrever, aprendeu a Escritura com o coração, já que era proclamada durante as refeições. Muitos reconheceram nele o dom da profecia e do conselho.
Félix de Nicósia morreu aos 71 anos. Em finais de maio 1787, quando trabalhava no jardim do convento, foi acometido por uma febre repentina. Por obediência ao padre Macário deixou-se ver por um médico, mas disse ao doutor que nada adiantava porque estava de partida, o que veio a acontecer às duas da manhã do último dia desse mês de maio.
J.P.F.
Datas da vida de Félix de Nicósia
1715 – 5 de novembro. Nasce em Nicósia (Ilha da Sicília), recebendo no batismo o nome de Tiago Amoroso
1735 – Primeiro pedido para entrar nos Capuchinhos
1743 – Deixa a profissão de sapateiro para ser recebido nos Frades Capuchinhos, depois de oito anos de pedidos insistentes
1744 – 10 de outubro. Faz a profissão religiosa
1787 – 31 de maio. Morre em Nicósia
1888 – 12 de fevereiro. É beatificado pelo Papa Leão XIII
2005 – 23 de outubro. É canonizado pelo Papa Bento XVI
Frei Félix ajuda-nos a descobrir o valor das pequenas coisas que enriquecem a vida e ensina-nos a colher o sentido da família e do serviço aos irmãos, mostrando-nos que a alegria verdadeira e duradoura,
pela qual aspira o coração de cada ser humano, é fruto do amor. Bento XVI
