Estas realidades não são uma antinomia. A actualização será mesmo, em muitas circunstâncias, condição de fidelidade. No assunto presente, sem dúvida alguma que assim é. O que, nem por isso, torna a tarefa menos exigente. “Já não somos o que fomos” – dizia-se, para afirmar que a Igreja de hoje é e não é a mesma de ontem. Porque mudou – e muda constantemente – a realidade humana que a constitui e a serviço de quem ela está.
Uma vez que a razão desempenha um papel fundamental no cerne do acolhimento e compreensão da fé, importa interrogarmo-nos hoje, como em qualquer tempo, sobre as razões do esperar e do crer, porque vivemos em contexto diferente de qualquer passado, porque as razões que hoje se hão-de dar precisam de responder, de maneira coerente, às interrogações que são peculiares do presente.
Cientes de que a fé envolve o risco de “ver” para além dos horizontes do tempo e do espaço – e é preciso querer saltar esses limites e acolher o impulso do Espírito que o permita e o estimula – seria, todavia, depreciativo para a razão humana renunciar à pergunta. Deixaria a própria razão de ter sentido, acomodando-se ao óbvio. E também de nada valeria à fé.
Ver as realidades novas, sociais e culturais, decantando-as de quaisquer “pré-conceitos”, é condição prévia de uma nova evangelização. Só depois deverão ser olhadas sob a luz da Revelação. Porventura para dizer que “não temos para dar” as respostas que apetecem às pessoas; mas com a verdade e a generosidade de ofertar as alternativas que o Evangelho disponibiliza e que – temos a certeza! – são caminho de Vida.
Uma Igreja que vive a presença do Senhor e a esperança nEle sente necessidade de dar razões dessa forma de vida. Nessas circunstâncias, a repetição de conteúdos que não contenham novas interpelações, pela linguagem e comunicação, pela objectividade dos problemas a enfrentar, acaba em monotonia, que, por sua vez resulta em indiferença e insignificância.
Sacramento de Jesus Cristo, para ser, como Ele, luz erguida entre as nações, a Igreja tem de assumir com serenidade a tensão permanente entre a fidelidade e a actualização, compreendendo que esta é condição de verdade daquela! Doutro modo, a sua missão, que é estar ao serviço da pessoa e da sociedade, será irremediavelmente traída.
