1 – Todos sabemos, desde há muito, o baixo nível de escolaridade dos nossos activos. É aterrador pensar que apenas vinte por cento têm a escolaridade do secundário, enquanto outros países, em fase de integração na União Europeia, se apresentam com níveis de mais de setenta por cento. Num abrir e fechar de olhos, poderemos ser engolidos pela concorrência dos qualificados “estrangeiros”, aumentando o caudal dos desempregados de longa duração ou dos arredados definitivamente de uma hipótese de vida activa.
2 – Um milhão e meio de pessoas precisam, urgentemente, de “reciclar” ou completar a sua formação: cerca de novecentos mil no primeiro caso; os outros cerca de seiscentos mil são jovens para quem se tem de encontrar uma rápida formação profissional. É uma situação muito pouco abonatória de tanto investimento feito em educação nos últimos anos. É um panorama que não dignifica, de modo algum, o sistema educativo, os projectos e processos educativos.
3 – Mais confrangedor se torna verificar que esta solução pode significar apenas um remendo ocasional da situação actual, que deixe o futuro hipotecado como até agora. É que, apesar dos estudos e projectos de combate ao insucesso e abandono escolar, as iniciativas operativas, se as há, não têm conseguido que a situação apresente sinais de inversão. Diminuiu o número dos que acedem ao ensino superior, não tanto pelo decréscimo demográfico quanto pela escassez de caudal dos que chegam ao final do secundário.
4 – Mas uma outra questão mais grave se nos coloca. É que a urgência desta formação perspectiva-se apenas no sentido de preparação para o mercado de trabalho. E a formação profissional não é de tal forma englobante que faça elevar as quotas de cidadania, da cultura da ciência e da sabedoria, do empenho social e do gosto da formação permanente. Se não se alterarem os horizontes educativos, se não se revolver a matriz dominante da superficialidade, do “divertissement”, do efémero, para dar lugar à cultura da responsabilidade, da profundidade de sentido, dos valores consistentes, os ciclos de crise vão suceder-se vertiginosamente, sem qualquer hipótese de estabilidade, sem afirmação de identidades pessoais dignificadas e tecido social equilibrado e de qualidade.
5 – Deixem-se de preconceitos, senhores responsáveis da educação. Pensem e projectem a pessoa integral; desenhem sistema e projectos educativos, implementem programas de formação, que produzam cultura. Acolham, de uma vez por todas, a herança que a nossa identidade nacional comporta, os seus valores, para abrir janelas a um desenvolvimento e progresso que nos coloquem no concerto das nações, sem termos de ser “transgénicos”. Deixemo-nos de más imitações! A integração multicultural é a única via de futuro sem convulsões.
