Função profética!

“A sua função é profética, no esclarecimento crítico das consciências” – dizia sua Eminência D. José Policarpo. Não é outro o objectivo da Doutrina Social da Igreja, património rico de muitos séculos, mas verdadeiramente orgânico de há dois séculos a esta parte.

Sem apresentar soluções concretas, que lhe não competem. Mas dando um contributo de reflexão, sobre a pessoa e a sociedade, que contribua decisivamente para a harmonia da mesma sociedade como um todo, estimulando o equilíbrio entre a intervenção de um Estado que dê suporte à iniciativa da sociedade civil e a multiplicação dessa mesma iniciativa, no horizonte da cooperação das forças sociais, em vista do bem comum.

“Esta presença crítica da Doutrina Social da Igreja não se faz apenas pelas declarações doutrinais do Magistério, mas pela intervenção dos cristãos na sociedade. Como protagonistas na vida da sociedade, eles devem impregnar do sentido de justiça e de amor as soluções procuradas”.

São fundamentais os princípios. E a lucidez dos Papas dos últimos tempos tem-nos legado um corpo doutrinal abundante e de excelente qualidade. A consciência mundial, às vezes entre gente que pouco tem a ver com a Igreja, cresceu visivelmente em solidariedade, também fruto desta tradução hodierna do Evangelho.

O que se não dispensa é que a palavra enunciada seja testemunhada por aqueles que integram a comunidade dos fiéis. Ao princípio, aquilo que espantava e provocava os que não eram cristãos era a prática quotidiana daqueles que o eram. Esse foi o milagre da multiplicação dos crentes: o testemunho, a coerência de quantos iam aderindo à fé.

Sem ficar à margem da luta pela justiça, a Igreja não pode nem deve tomar o lugar do Estado, “não pode nem deve tomar nas suas próprias mãos a batalha política para realizar a sociedade mais justa possível”. O que não pode é deixar de incutir nos seus membros o dever de construir a cidade segundo o projecto de Deus para o Homem. E isso implica que a função profética, proclamada nos princípios, se torne operativa com o empenho, igualmente profético, dos cristãos.

Tratando-se de reflectir a criação de emprego, já que o trabalho, caminho de realização da pessoa humana, individualmente e em sociedade, é provavelmente a chave de toda a questão social, a Igreja tem um contributo próprio a dar, a que não pode negar-se. Mais uma vez para o esclarecimento crítico das consciências e para a motivação dos crentes. E, de novo, é a sua função profética que lho exige.