Com apenas duas horas de sono, acabado de chegar da Tailândia, onde tentou, sem sucesso, obter a ordem de entrada de uma equipa da AMI na Birmânia, Fernando Nobre, cansado mas não abatido, fala com desenvoltura dos problemas mundiais: a emigração, as alterações climáticas, as catástrofes humanitárias, o cinismo dos poderes ocidentais, a escassez de alimentos, a sobreposição da economia à sociedade… Para criar um outro mundo melhor, é necessária “uma cidadania global solidária” e, para isso, “já não basta murmurar; é preciso gritar”.
O médico fundador da AMI (Associação Médica Internacional) fala com delicadeza, mas as suas palavras são gritos que convencem. A força da sua voz não vem do volume, suave, mas dos factos, esmagadores.
Desde que fundou a AMI, em 1984, participou em mais de 200 missões humanitárias em cerca de 70 países. É frequentemente convidado para fóruns internacionais, onde tanto tenta contribuir para as soluções como lida com a hipocrisia de algumas instâncias e líderes. Viu populações dizimadas por catástrofes naturais ou, ainda pior, por outros seres humanos (como no Congo, ex-Zaire, em 1995). Acompanhou na morte dezenas, talvez centenas de pessoas (a começar pelo seu pai). Por isso, impressionando as duas ou três dezenas de pessoas que na tarde de quarta-feira, 4 de Junho, se juntaram na Universidade de Aveiro para o ouvir, afirma: “Se estivermos conscientes, cinco minutos antes da morte, o corpo recebe a mensagem da morte. Nesses momentos últimos, espero que cada um de nós tenha alguém a quem agarrar a mão”.
Porquê falar da morte, quando o tema do encontro diz que “é possível sonhar com um mundo melhor?”. Talvez porque, sentindo-se no “Outono da vida”, como referiu (tem 57 anos), pensa na herança que deixa aos seus quatro filhos – e à sociedade, acrescentamos. “Aos 20 anos, pensava que ia mudar o mundo. Não mudei nada. Deitei umas gotinhas de água aqui e ali, que talvez tenham ajudado algumas pessoas. Já me dou por satisfeito, se tiver mudado os meus filhos”.
“Somos corresponsáveis”
Fernando Nobre considera que não pode mudar o mundo, mas está convencido de que os cidadãos globais podem. “Os problemas são globais, e só como cidadãos globais podemos enfrentá-los”. Como? “Com pressão, pressão e mais pressão”. E adianta um exemplo: “Um mês antes da Guerra do Iraque, participei numa manifestação em Lisboa contra a guerra que se anunciava. Éramos 80 mil. Passados quinze dias, nova manifestação. Já éramos só 15 mil. Se fôssemos 800 mil, aquele senhor que agora está em Bruxelas não estaria na fotografia [referência a Durão Barroso e à Cimeira das Lajes, com George W. Bush, Tony Blair e Aznar]. Nós somos corresponsáveis. Há temas sobre os quais devemos fazer questão em sermos ouvidos. Se não, depois pagamos”. E conclui: “Só podemos sonhar com um mundo melhor, se não nos demitirmos das nossas responsabilidades”. Noutro ponto da conversa, afirmou aquilo que poderá ser considerado um «princípio de responsabilidade e de solidariedade»: “Temos de considerar as crianças de todo o mundo como nossos putativos filhos. Melhor, somos seus putativos pais. Elas não são como baratas”.
Economia tentacular
Porque a cidadania global passa pela consciência sobre o mundo actual, Fernando Nobre criticou a sobreposição da economia a todos os âmbitos da sociedade. “Tal como uma cadeira para ter o mínimo de estabilidade precisa de três pés, o mundo precisa do Estado, da economia e da sociedade civil. Mas o que nós vemos é a força do mercado a sobrepor-se ao Estado e a avançar sobre a sociedade civil. As empresas até criam as suas próprias ONG! A sociedade civil está cada vez mais cercada”.
Para o fundador da AMI, ainda estamos no tempo de valorizar e aperfeiçoar a democracia e não naquilo a que alguns já chamam de “pós-democracia”. Se as pessoas, “em troca de segurança, estiverem dispostas a abdicar de liberdades”, fechando-se em condomínios, que tanto podem ser a habitação como uma comunidade de países, entraremos no “plano inclinado” do mundo pouco solidário e cada vez mais desigual.
AMI não consegue entrar na Birmânia
Fernando Nobre esteve nove dias na Tailândia a tentar obter autorização de entrada em Myanmar (Birmânia), para uma equipa da AMI, mas não conseguiu.
O governo militar de Myanmar exigiu que a AMI fizesse uma lista do material que pretendia levar e uma carta a oferecer os produtos. Fernando Nobre não aceitou as condições, porque queria que a equipa da AMI garantisse a entrega dos alimentos e do material médico às populações vítimas do ciclone Nargis (no dia 6 de Maio), acompanhando os camiões ou o avião. “Sabia que, logo na fronteira, a ajuda seria entregue aos militares. Não estou para que a ajuda humanitária ajude a ditadura”, afirmou. A solução passou por “entregar a ajuda através da Igreja Católica”. Foi a primeira vez, em trinta anos de actividade (começou em 1979, ligado aos Médicos Sem Fronteiras), que se viu impedido de entrar num país.
“O Ocidente perdeu
a autoridade moral”
Embora a recusa da entrada na Birmânia se deva à obstinação do regime militar, Fernando Nobre considera que a acção das organizações humanitárias está a ser prejudicada pela perda de autoridade moral do Ocidente. Porquê? Porque foi invocado o direito de ingerência humanitária para fazer a Guerra do Iraque. Ora, as razões para essa guerra foram “fabricadas, falsas e falaciosas”. Mais: que autoridade pode ter o Ocidente com práticas como os voos da CIA (com prisioneiros), a prisão de Guantánamo e os barcos-prisões?
“As nossas democracias andam por caminhos que não são nada abonatórios”, afirmou. Os blocos regionais, como a ASEAN (países asiáticos), em relação à Birmânia, ou a África do Sul, em relação ao Zimbabué, sentem-se fortes para recusar a ajuda ocidental. A ajuda “está manietada”. É a primeira vez que tal acontece.
A emigração
é um desafio global
Fernando Nobre afirmou que “está tudo ligado” – subida dos preços, alterações climáticas, escassez alimentar –, mas destacou a emigração como um dos principais desafios globais. Notando que na escola da Lousã, em que estivera ao início da tarde, encontrara crianças de 21 nacionalidades, afirmou que até 2020 o fenómeno migratório aumentará exponencialmente. É inevitável. “Uma pessoa que emigra da África para a Europa significa o sustento da família que fica em África”, disse. Para os pescadores africanos, compensa mais transportar pessoas para a Europa (calculando-se que tenham naufragado 20 mil emigrantes em 2006) do que pescar.
Se nada se faz (e a resposta não é “fechar fronteiras”, mas solidariedade e desenvolvimento), aumentam os partidos “xenófobos, racistas e demagogos que podem acabar com a democracia”.
