“Gabinetes de Imprensa na Igreja: luxo ou necessidade?” Este tema esteve em debate nas Jornadas Nacionais das Comunicações Sociais, que todos os anos reúnem em Fátima responsáveis eclesiais pela comunicação e jornalistas que se dedicam à religião nos diversos meios, muitos deles não ligados à Igreja.
Em nenhum momento foi tido que os gabinetes de imprensa (GI) são um luxo. Quase todos os especialistas convidados para este encontro que decorreu nos dias 10 e 11 de Setembro, a começar pelo P.e Federico Lombardi, porta-voz do Papa, realçaram que é uma necessidade. A Igreja não existe sem comunicação. Os GI são um elo imprescindível entre a instituição e os órgãos de comunicação social. Os GI fazem um caminho de duplo sentido: levam a Igreja e os seus responsáveis aos meios de comunicação e ajudam os profissionais da comunicação no relacionamento com os responsáveis e as instituições da Igreja.
D. Manuel Clemente, bispo do Porto e presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, abriu os trabalhos notando que no nosso tempo a comunicação deixou de ser instrumental para ser ambiental. “Este tempo só pode ser vivido em termos de comunicação”. “O que aparece é”. “Viver é conviver. A realidade é comunicacional”.
A atenção da Igreja à comunicação não é uma realidade que se impõe de fora, “pela exigência dos meios de comunicação social”, mas de dentro, pela “exigência da comunhão”. “Como lembrou Bento XVI – disse o bispo do Porto –, Deus é comunicação/comunhão”.
Textos de Jorge Pires Ferreira
Porta-voz do Papa
O padre jesuíta Federico Lombardi, director de programas da Rádio e Centro Televisivo do Vaticano, é o porta-voz do Papa desde 2006.
Antes das jornadas de Fátima propriamente ditas, afirmou num encontro com jornalistas que Bento XVI foi convidado para visitar o Santuário, que o Papa “sabe perfeitamente o que é Fátima para o mundo católico”, que “certamente deseja vir a Fátima”, mas que não lhe compete a ele, porta-voz, anunciar ou divulgar as visitas papais.
Sobre a sua escolha para porta-voz, ou chefe do gabinete de imprensa da Santa Sé, P.e Lombardi afirmou: “Aceitei-a com surpresa. Como a expliquei a mim mesmo? Creio que foi uma escolha de facilidade. Fui considerado um candidato com conhecimento profundo da realidade do Vaticano e do diálogo com os superiores da Igreja, com experiência na comunicação na Rádio e no Centro Televisivo. Penso que ofereço suficiente segurança e tranquilidade às pessoas que me nomearam”.
Federico Lombardi considerou especialmente relevante a ida do Papa à Terra Santa, mas pede que não se esperem resultados imediatos de tal acto. “O Papa é um profeta desarmado. A Igreja não entra nas negociações [Israel/Palestina]. Não manda em políticos, mas afirma os princípios, deixa uma mensagem de paz com muito equilíbrio”.
Amargura de Bento XVI
Sobre as relações por vezes complicadas do actual pontificado com a imprensa mundial, o porta-voz do Vaticano sublinhou que é preciso esperar para fazer uma avaliação correcta e lembrou que no início do pontificado de João Paulo II a imprensa, pelo menos em Itália fortemente marcada pela esquerda, não lhe era tão simpática como no final. Notou, por outro lado, que em França, país tradicionalmente laico e anticlerical, e nos EUA, principalmente durante a visita de 2008, a imprensa acolheu muito bem o Papa Ratzinger. Referiu, contudo, um caso que provocou “amargura” em Bento XVI: o que se disse a propósito da tentativa de reintegração dos lefebvrianos (tradicionalistas), entre os quais estava o bispo Richard Williamson, que chegou a negar o Holocausto. O Papa foi injustamente tomado como anti-semita, quando “dedicou tanto do seu tempo e da sua reflexão como teólogo ao diálogo entre cristãos e judeus” e já assumira diversos gestos de aproximação como Papa. “Chegou o bispo Williamson e tudo desapareceu”, rematou Federico Lombardi.
