Aveirenses Esquecidos “Herói dos Dembos”, o general João de Almeida notabilizou-se como um investigador histórico e do património monumental militar português, autor de uma obra que é referência nessa área: “Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses”.
João de Almeida nasceu no lugar de Cairrão, freguesia de Vila Garcia, no distrito da Guarda, no dia 5 de Outubro de 1873, e faleceu em Lisboa, no 5 de Maio de 1953. Casou-se com a aveirense Laura Mendes Leite, filha do oficial da armada Manuel Luís Mendes Leite (filho adoptivo de parlamentar aveirense Mendes Leite), de quem herdou a Casa e a Capela do Seixal. Os filhos Alexandre Mendes Leite de Almeida (Aveiro, 30 de Abril de 1915 / Aveiro, 19 de Abril de 1984) e João Mendes Leite de Almeida (1926) também se evidenciaram como oficiais superiores, o primeiro atingindo o posto de general do Exército Português (Cavalaria) e o segundo, de coronel, na Força Aérea Portuguesa.
João de Almeida frequentou a Escola do Exército, da qual saiu com o posto de alferes, em 1896. Em 1901, já como tenente, tirou o bacharelato em Matemática e em Filosofia na Universidade de Coimbra. No ano de 1903, concluiu o curso de Estado Maior.
Em 1906, partiu para Angola. No ano seguinte, distinguiu-se nas campanhas do Cuamato. Os sucessos alcançados na campanha contra os Dembos, no norte de Angola (1907), fizeram que passasse a ser popularmente conhecido como “herói dos Dembos”, por ter pacificado esse povo em Angola durante as Campanhas de África, tendo contribuído também para a pacificação da região de Huíla, cidade onde desempenhou as funções de governador interino, reforçando a acção administrativa da província.
Por motivos de doença grave, regressou a Lisboa no ano de 1908. No ano seguinte, já curado, volta para Angola, assumindo o cargo de governador de Huíla, tendo conseguido fixar a fronteira sul de todo o território angolano, numa acção militar e de administração verdadeiramente notável. Em simultâneo, realizou levantamentos geográficos regionais.
Por ser fiel à Monarquia, em 1912, dois anos após a implantação da República, foi demitido do exército, exilando-se em Paris, onde se licenciou em Engenharia Civil, na Ecole du Genie Civil. No entanto, em 1918, voltou a ser readmitido. No ano de 1919, então com o posto de Coronel e Comandante militar da região de Aveiro, João de Almeida envolveu-se na Monarquia do Norte ao lado de Paiva Couceiro. Após o fracasso dessa tentativa de reimplantar a Monarquia, teve ordem de prisão mas o comissário encarregado da sua detenção, Salvador do Nascimento, permitiu a sua fuga pois ele próprio tinha sido preso político durante a ditadura de João Franco por conspirar contra a monarquia.
Na década de 1920, João de Almeida foi um dos oficiais ligados às revoltas que conduziram à implantação do Estado Novo, tendo o seu nome sido proposto, pela ala militar do regime, agrupada na Liga 28 de Maio, para substituir António de Oliveira Salazar. No ano de 1933, foi promovido, por escolha, a general.
Ainda que ligado à ala mais conservadora do Estado Novo, João de Almeida sempre mostrou muita sensibilidade social, tendo sido um acérrimo defensor de uma maior intervenção do Estado na área da Saúde, nomeadamente através da implementação de medidas preventivas de saúde pública.
João de Almeida recebeu diversas condecorações, entre as quais, a de Grande Oficial da Ordem Militar da Torre e Espada, de que era Comendador desde 1908, depois das operações dos Dembos, a medalha Rainha D. Amélia com a legenda “Dembos”, a medalha de ouro de Serviços Distintos no Ultramar e a Legião de Honra.
O distanciamento político com o regime do Estado Novo deu azo a João de Almeida para se dedicar à investigação histórica e à escrita.
Cardoso Ferreira
PJ recupera espólio do general João de Almeida
No início deste ano, a Polícia Judiciária (PJ) deteve, em Lisboa, um suspeito de vender espólio do general João de Almeida, nomeadamente uma pasta com documentos e artigos alegadamente furtados de uma residência na zona de Águeda.
O espólio era constituído por diversa documentação referente à vida e obra do militar, designadamente manuscritos, fotografias, correspondência, quadros (a carvão, tinta da china e aguarela) e publicações da época, tudo com importante valor científico, artístico e histórico.
Investigador de renome nacional
O “Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses”, publicação subsidiada pelo Instituto de Alta Cultura, ainda que numa edição de autor (Lisboa-1945-1947), em três volumes, é a obra mais conhecida de João de Almeida, a qual, apesar da sua enorme relevância, há muito que se encontra esgotada. Esta obra é citada em monografias das mais diversas terras do país e em trabalhos sobre história, arqueologia e património monumental em Portugal.
O volume I é dedicado aos Distritos da Guarda, de Castelo Branco e de Viseu. O volume II tem por alvo os Distritos de Aveiro, de Coimbra, de Leiria e de Santarém, enquanto o volume III centra-se nos Distritos de Portalegre, de Évora, de Beja e de Faro.
Os volumes IV e V, que estavam em preparação, não chegaram a ser publicados. Deveriam cobrir os restantes distritos do país.
“O Fundo Atlante da Raça Portuguesa e a sua evolução histórica” é outra obra de referência de João de Almeida, esta na área da história e da antropologia.
Para além dos trabalhos de investigação realizados no continente, a grande ligação de João de Almeida a Angola e a Cabo Verde levaram-no a efectuar diversos estudos naqueles dois países.
João de Almeida também deixou vasta bibliografia sobre a região da Guarda.
General João de Almeida é topónimo de rua em inúmeras localidades do país (incluindo Lisboa) e até em Angola (Luanda), sendo também patrono de escolas.
