“Estais no mundo, mas não sois do mundo” (S. Paulo)
Vivemos num tempo de convulsão social. A Igreja sofre hoje na pele o facto de o Estado a ter usado e, agora que já não precisa, lhe cortar as bases. Refiro-me a muitos serviços. O que tem mais mediatismo, hoje, é o da educação.
Escrevo este texto como cristão e membro activo da minha Igreja. É em autocrítica que escrevo.
A parábola dos talentos premeia o servo que bem gere e multiplica os talentos dados pelo Senhor. Nós temos andado a enterrá-los e a guardá-los com medo. Empatamos decisões, adiamo-las, “engonhamo-las”- uma expressão nada boa de se escrever, mas muito boa de se dizer para o caso.
Nós, Igreja, somos uns “parolos”. Oferecemos continuadamente a outra face, como idiotas. Temos condições para tanto e não fazemos nada, para ser mais exacto: pouco mais que nada. Deus deu-nos tantos talentos e não fazemos nada deles.
Vamos por pontos, de facto, por talentos:
1. A Diocese (entre padres, instituições, paróquias, secretariados, seminário, cúria, paço episcopal) é dona de uma frota automóvel imensa. Uma carteira destas qualquer marca de automóveis, qualquer agente de seguros lutava para a ter. Seriamos clientes interessantíssimos e conseguiríamos preços com enormes vantagens. Mas assim…
Tenho informação de que este assunto já foi lançado, mas ao que parece não deu em nada ainda. Os carros são apenas um exemplo entre tantos que poderia dar.
2. A Diocese gere e fornece milhares de refeições e serviços sociais por dia nas suas inúmeras IPSS. Há dois anos foi criada uma comissão que estudaria a possibilidade de uma central de compras – ficou escrito do plano diocesano da acção sócio-caritativa. Em que ponto está essa situação? Aguardamos novidades sobre esta questão, sobre o que está a ser feito e porque não se faz mais.
Independente dela, porque não faz a Diocese, através de leigos gestores e comprometidos uma central de compras e venda retalhista, que forneça as instituições da Igreja com bons preços e que venda também ao mercado normal?
3. Na educação e no trabalho sócio-caritativo, andámos muitos anos a gerir mal os dinheiros que o Estado nos dava. Fomos também despesistas e maus gestores. A própria colocação de alguns dos professores nos colégios católicos não foi transparente. Isso hoje, limita-nos imenso a autoridade moral que temos para reivindicar financiamento do Estado, do dinheiro que é de todos nós. Não fomos responsáveis com os talentos que nos foram dados.
O trabalho sócio-caritativo é tão disperso, algumas instituições até se atropelam, e insistimos no assistencialismo dependente e não damos o passo seguinte para a capacitação e empoderamento dos pobres, para que eles o deixem de ser! Porquê? Queremos manter os nossos empregos? É esse o objectivo primeiro da nossa acção caritativa, ou é o outro, o pobre que tem de o deixar de ser? O que nos diz o Evangelho?
Não devemos ser apologistas da esmola dos fiéis ou dos subsídios contínuos do Estado. Isso é uma ilusão que uns anos depois ou antes, termina. Ou seja, os projectos têm de ser sustentáveis do ponto de vista financeiro, têm de ser geridos, nem numa lógica despesista, nem lucrativa, mas sustentável para manutenção e, se possível, para crescimento!
4. O Papa recentemente criou a Autoridade de Informação Financeira (http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=83530). E se houvesse igual transparência nas contas diocesanas e paroquiais? Sei por experiência própria que as instituições são geridas com boa vontade, quase sempre sem tempo. Por que não tirar tempo para lidar bem com as contas e apresentá-las de modo transparente? Tudo, desde o quanto se recebe do Estado para a maior IPSS da Diocese, até ao que o padre da paróquia da minha pequena aldeia de Santa Catarina cobra por baptismos ou funerais ou procissões. Quanto ganha em bruto um padre? Alguns muito… outros quase nada. É injusto isso.
Seguimos tanto o Papa nalgumas coisas, noutras, não é connosco. Os dinheiros do fundos diocesanos, como são geridos? Como são investidos? São-nos em acções eticamente responsáveis? O certo é que provavelmente são e confio plenamente que são, mas de facto que não sabemos! A transparência é pedida, mas não é dada.
5. Porque não investimos em criar empresas fornecedoras da Diocese? Empresas que sejam exemplos morais correctos, à luz do corporativismo cristão proposto por Paulo VI que sugere nem capitalismo, nem comunismo, mas um sistema justo que distribua a riqueza pelos trabalhadores! Um sistema que estabelece uma empresa que distribui os lucros pelos seus trabalhadores, pelos que fizeram a empresa ter sucesso e não apenas por accionistas invisíveis e especuladores (a grande causa da crise que vivemos e começou em 2008).
6. O Correio do Vouga… o jornal conhecido como “o jornal de Aveiro” por muitos anos. Desde há cerca de um ano, o triste desaparecimento do semanário “O Aveiro”, deixou um nicho aberto para o Correio do Vouga ser o único semanário de Aveiro, podendo tornar-se um órgão de comunicação social abrangente, em larga escala, como a Rádio Renascença o é a nível nacional. O Correio do Vouga pode e deve-se tornar um órgão de comunicação social de referência, um jornal de investigação, de reportagem, de notícias, continuando sempre a ser o que já é hoje: o jornal da Diocese. Pode mesmo assim ser um exemplo de sucesso comercial, com receitas em publicidade e cumprindo a obrigação de informar, de ser referência. Porque não damos o salto?! Porque não colocamos a render os talentos que nos foram dados?!
A gestão em geral, e especialmente na Igreja, deve ser feita com competência, feitas por leigos profissionais nessa área, libertando os padres para a pastoral que é a sua verdadeira missão.
Urge recuperarmos autoridade moral; urge que sejamos exemplo em todas as frentes da sociedade para que assim sejamos farol. Evangelizar não é só dizer como se tem de fazer. É sobretudo, mostrar como se faz e isso é centralidade na pastoral, e em redor dela, a sustentabilidade.
“A Deus o que é de Deus, a César o que é de César”. Para sermos farol, não temos de falar de luz. Temos de mostrar luz.
