“As Barcas” no Teatro Aveirense Esta criação toma como base os textos das Barcas de Gil Vicente (“Auto da Barca do Inferno”, “Auto da Barca do Purgatório” e “Auto da Barca da Glória”), mas não é teatro vicentino. É teatro contemporâneo, com a omnipresença da questão do corpo, o corpo sensível, o corpo “perdido nos labirintos do tempo e dos sentidos”, referências à crise e aos desejos de algumas mentalidades atuais que veem a realização humana na multiplicação do dinheiro, na frequência de escolas de elite, na casa vistosa, e crítica religiosa que em alguns momentos entendemos, como quando se fala do “coelhinho da Páscoa”, e noutros repudiamos. A certa altura os atores falam e cantam com sotaque brasileiro para um suposto Jesus numa cadeira (que está vazia) que depois é elevada e transportada como andor. Evidentemente que a liberdade artística não pode ser negada. Custa é ouvir o riso gratuito do público à invocação do nome daquele em que acreditamos como redentor. Parece que a crítica vicentina, cortante para os crentes e as crendices na transição da Idade Média para o Renascimento, mas mantendo a fé no Salvador (as barcas confessam claramente a fé numa vida para lá desta vida), é subvertida por esta criação que se pretende filiada nas ideias e frases do fundador do teatro português.
Se como afirma o autor da peça, João Garcia Miguel, “as barcas são uns sapatos para gigantes que permitem que se caminhe sobre as águas que rodeiam o mundo e partir para outro mundo”, o outro mundo aqui não é o da escatologia cristã (céu, purgatório, inferno). É o mesmo da banalidade de um certo tipo de teatro contemporâneo que não consegue evitar uns gestos repentinos cujo sentido não se percebe (ok, representam o absurdo e a incomunicabilidade da sociedade em que vivemos), uns corpos nus ou seminus e, claro, críticas gratuitas à religião. Só cristã, pois. A peça, de cerca de hora e meia, pode ser vista na íntegra em http://www.joaogarciamiguel.com/html_pt/work/asbarcas_pt.php.
J.P.F.
Teatro: “As Barcas”, no Teatro Aveirense, dia 19 de abril, às 21h30. Direção e dramaturgia de João Garcia Miguel. Interpretação de Felix Lozano, Sara Ribeiro, David Pereira Bastos e Costanza Givone. Bilhetes a 4 euros.
