Gil Vicente supostamente no século XXI

“As Barcas” no Teatro Aveirense Esta criação toma como base os textos das Barcas de Gil Vicente (“Auto da Barca do Inferno”, “Auto da Barca do Purgatório” e “Auto da Barca da Glória”), mas não é teatro vicentino. É teatro contemporâneo, com a omnipresença da questão do corpo, o corpo sensível, o corpo “perdido nos labirintos do tempo e dos sentidos”, referências à crise e aos desejos de algumas mentalidades atuais que veem a realização humana na multiplicação do dinheiro, na frequência de escolas de elite, na casa vistosa, e crítica religiosa que em alguns momentos entendemos, como quando se fala do “coelhinho da Páscoa”, e noutros repudiamos. A certa altura os atores falam e cantam com sotaque brasileiro para um suposto Jesus numa cadeira (que está vazia) que depois é elevada e transportada como andor. Evidentemente que a liberdade artística não pode ser negada. Custa é ouvir o riso gratuito do público à invocação do nome daquele em que acreditamos como redentor. Parece que a crítica vicentina, cortante para os crentes e as crendices na transição da Idade Média para o Renascimento, mas mantendo a fé no Salvador (as barcas confessam claramente a fé numa vida para lá desta vida), é subvertida por esta criação que se pretende filiada nas ideias e frases do fundador do teatro português.

Se como afirma o autor da peça, João Garcia Miguel, “as barcas são uns sapatos para gigantes que permitem que se caminhe sobre as águas que rodeiam o mundo e partir para outro mundo”, o outro mundo aqui não é o da escatologia cristã (céu, purgatório, inferno). É o mesmo da banalidade de um certo tipo de teatro contemporâneo que não consegue evitar uns gestos repentinos cujo sentido não se percebe (ok, representam o absurdo e a incomunicabilidade da sociedade em que vivemos), uns corpos nus ou seminus e, claro, críticas gratuitas à religião. Só cristã, pois. A peça, de cerca de hora e meia, pode ser vista na íntegra em http://www.joaogarciamiguel.com/html_pt/work/asbarcas_pt.php.

J.P.F.

Teatro: “As Barcas”, no Teatro Aveirense, dia 19 de abril, às 21h30. Direção e dramaturgia de João Garcia Miguel. Interpretação de Felix Lozano, Sara Ribeiro, David Pereira Bastos e Costanza Givone. Bilhetes a 4 euros.