A Eucaristia no meu coração Quem me fez a proposta deste pequeno comentário, apressou-se a dizer-me. “ Para si é fácil…. celebra todos os dias!”
E eu vivi nessa aparente evi-dência, até que tive de me sentar e começar a escrever. E aí a coisa mudou de figura… Não é tão evidente nem tão fácil falar da Eucaristia. E ainda bem, penso eu. Por isso aqui vai algo do que consegui…
Para falar da Eucaristia, tenho de ultrapassar as distâncias do tempo e o significado das fórmulas e penetrar naquela tarde de quinta-feira santa, na “sala de cima”,e rever o quadro. O momento parece normal, como em todas as casas judias, já que a Páscoa estava aí. Mesa posta, lugares ocupados e a oração do ritual avizinha-se; mas…. falta o cordeiro. Aliás, sobre a mesa estão distribuídos nacos de pão e uma taça com vinho. A oração também não é a que está determinada e que recordaria toda a gesta do Antigo Testamento, mas simplifica-se, de uma forma tão comovente que ninguém se atreve a dizer nada. O silêncio fala mais alto que as palavras, talvez adivinhando que a hora da verdade estava para chegar. Com a voz clara e compassada, própria dos grandes momentos, o Mestre pega no pão e diz: “Tomai e comei. Isto é o Meu Corpo que será entregue por vós!” E, em seguida, pega na taça e subverte, de igual modo, a benção proposta: “Este é o cálice do meu sangue. O sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós e por todos para a remissão dos pecados.”
E conclui: “Fazei isto em memória de Mim!”
Momentos de significado profundo, que só o silêncio das palavras e o cair da tarde ajudam a compreender e que contrastam com o ritmo do nosso tempo, o calendário das missas e as horas dos relógios.
Reunião festiva, na presença do Mestre, que se faz o novo cordeiro a ser comungado por todos.
Encontro de comunidade, em que os lugares da frente são todos ocupados e ninguém se sente a cumprir uma obrigação.
É esta panóplia de contrastes que eu sinto, quando celebro a Eucaristia, sobretudo naqueles momentos em que mais não faço que ser a voz daquele que é a Palavra e as mãos daquele que é a Cabeça. Mistério de amor, traduzido em gestos tão simples como pegar num pedaço de pão ou num cálice com vinho, mas mistério a ser descoberto à luz da minha fé, que mais não sabe dizer que imitar Tomé: “Meu Senhor e Meu Deus!”
Afinal de contas, não sei dizer muito bem o que é celebrar a Eucaristia. Mas gosto de o fazer e preciso de a viver.
Pe. Manuel J. Rocha
