Questões Sociais Ao longo dos últimos séculos, os Estados, e particularmente os governos, têm sido os agentes fundamentais dos progressos verificados no domínio social. Para isso concorreram as formações políticas mais implantadas, com realce para a social-democracia, a democracia cristã e o socialismo. Os governos têm procurado sistematicamente fazer o equilíbrio entre interesses divergentes, com realce para o conflito entre o capital e o trabalho, visando a optimização possível. No entanto, apesar desta relevância invulgar, não suscitam simpatias generalizadas, pelo menos em países mais imaturos polticamente como é o caso de Portugal. Quase toda a gente sabe que não existe alternativa ao Estado e governo, para a prossecução do bem comum; mas quase toda a gente procede como se a desordem total fosse preferível à existência deles, esquecendo que os beneficiários da desordem nunca seriam as pessoas mais frágeis.
Para a preservação da boa consciência, muitas forças político-sociais não se afirmam, explicitamente, contra os Estados e governos, mas sim contra os que existem. Por tal motivo, apresentam alternativas que, em geral, não passam de meras abstracções; e não esclarecem como é que essas abstracções se podem implantar e manter pela pela via democrática.
Hoje, como no passado, os governos vivem sob dois fogos permanentes: A opressão económica e a contestação social. A opressão económica provém dos grandes interesses transnacionais, cumpridores ou não da lei, que detêm uma soberania poderosíssima, superior à dos Estados. A contestação social provém de movimentos diversos de natureza política, sindical, regional, local, intelectual, corporativa, mediática…, que dispõem de um verdadeiro poder soberano de corrosão demolidora. Os arautos da opressão económica entendem que os governos cedem excessivamente à contestação social; e os arautos da contestação social entendem que cedem excessivamente à opressão económica. Neste contexto, o ser membro honesto de um governo exige a prática diária de heroísmo, ou ascese exigente, defrontando-se com a aliança efectiva da opressão económica e da contestação social; além disso o povo, com suas instituições e empresas, também não está satisfeito. Em rigor, os governos não têm aliados; nem sequer nos outros órgãos de soberania nem, muitas vezes, nos partidos que os «apoiam».
O país terá futuro sem uma aliança básica, ou pelo menos um entendimento firme, entre o governo, os outros órgãos de soberania e as pessoas, instituições, empresas e movimentos empenhados a sério no bem particular e no bem comum?
