“Grandes investimentos” – graves irresponsabilidades?

Questões Sociais Debaixo do fogo das lutas partidárias, o tema «grandes investimentos» acha-se tão desfocado que se torna quase impossível abordá-lo com um mínimo de clarividência. O Governo parece agir irresponsavelmente ao mantê-los na fase final do seu mandato. As oposições parecem cair na irresponsabilidade de esquecer que eles foram objecto de consenso no passado, já implicaram despesas vultosas e remontam a datas muito recuadas: o «aeroporto de Lisboa» (Ota, inicialmente, e agora Alcochete) já se encontrava previsto antes de 1974; e o TGV inscreve-se nos grandes projectos lançados, há mais de vinte anos, pelo Comissão Europeia presidida por Jacques Delors. O Governo poderá não ser suficientemente responsável ao sacrificar, eventualmente, alguns investimentos de menor dimensão e de mais dispersão pelo país, como por exemplo a melhoria da rede escolar e a reabilitação urbana. Mas as oposições não lhe ficam atrás, na medida em que menosprezam o facto e não haver incompatibilidade entre eles e os tais «grandes»; para além disso, esquece que o co-financiamento europeu está quase garantido para estes, e que seria bastante morosa e incerta a transferência para outros.

Parece evidente que as actuais dificuldades económico-financeiras e o termo do mandato governamental aconselham alguma prudência na prossecução dos «grandes investimentos». Mas parece igualmente aconselhável que não se aproveitem estas duas condicionantes para pôr em causa orientações estratégicas antigas, sem se medirem as consequências e sem se examinar a coerência com posições anteriores. Também parece aconselhável não utilizar abusivamente o argumento dos encargos financeiros transferidos para gerações futuras; na verdade, não existe informação consistente sobre o assunto e, por outro lado, as futuras gerações tanto podem criticar as actuais pelas suas dívidas como pela sua falta de coragem estratégica.

A orientação recomendável, e já aceite em parte, nesta matéria parece exigir uma postura ética básica, em todas as forças políticas e nos cidadãos em geral. Essa postura implica, especialmente, que as posições sobre os «grandes investimentos» não sejam tomadas com base nos critérios da luta partidária; mas sim à luz de compromissos e despesas anteriores, bem como da análise custo-benefício e dos imperativos do bem comum. Respeitando estes critérios, talvez seja viável um consenso tendente a: honrar compromissos anteriores; não desperdiçar os recursos já despendidos, por governos diferentes; reduzir o número ou volume de projectos; e desacelerar, durante algum tempo, o ritmo dos que persistirem…