Congresso Republicano Mário Soares recordou intervenção de há 40 anos e a evolução para o regime democrático
Quando Mário Soares apresentou o tema “A Constituição de 1933 e a evolução do País”, no II Congresso Republicano, realizado em Aveiro, nos dias 16 e 17 de Maio de 1969, teve críticas e assobios.
O antigo Presidente da República regressou no sábado passado ao Teatro Aveirense, passados 40 anos, para recordar o evento. “Os meus amigos comunistas não gostaram nada da tese que apresentei, porque podia levar à criação de um partido. Tive críticas e assobios, mas não estava à espera do contrário”, afirmou, realçando que os comunistas, contra os socialistas, os católicos progressistas e outras tendências, queriam ter o monopólio da oposição ao Estado Novo. Mário Soares defendeu em 1969 que, para haver democracia em Portugal, seria necessário acabar com o colonialismo e permitir ao autodeterminação das colónias, rever a constituição de maneira a permitir eleições livres, acabar com a censura e dar uma amnistia geral aos presos políticos.
O antigo Presidente da República serviu-se da invocação do II Congresso Republicano de Aveiro (o primeiro foi em 1957 e o terceiro seria em 1973, com a designação de “Congresso da Oposição Democrática”) para fazer uma história da evolução da democracia em Portugal, que, como é sabido, tem nele um dos protagonistas.
Mário Soares recordou que interveio em Aveiro depois de ter regressado de um ano no exílio em S. Tomé, na sequência da “primavera marcelista”. Fora aluno de Marcelo Caetano, um “excelente professor” que cometeu a asneira de “enveredar pela política”.
Após o congresso de Aveiro, o socialista confrontar-se-ia com comunistas no Porto e forma a convicção de que não é possível uma aliança com o PC. É convidado para integrar as listas da Acção Nacional (ex-União Nacional), mas recusa, “obviamente”, concorrendo com a CEUD em Lisboa, Porto e Braga, embora, ao contrário de outros, já não acreditasse que “fosse possível democratizar o regime a partir de dentro”. Após as eleições, é “ameaçado de morte” e faz um périplo por países da Europa e da América. Regressa a Portugal por causa da morte do seu pai, mas é forçado pela DGS (ex-PIDE) e abandonar o país. Regressará no dia 28 de Abril de 1974, já com o PS constituído.
Mário Soares não participou no III Congresso, que acabou com a intervenção da Polícia de Choque. “Mandei textos”, diz. “A Maria Barroso veio e foi uma das espancadas pela polícia”, acrescenta.
O socialista confessou que na altura da revolução de Abril pensava que se a nova democracia durasse 16 anos como a I República já ficaria satisfeito. E sublinhou que se não fosse o 25 de Novembro de 1975, Portugal teria entrado noutra ditadura, agora de esquerda, “mais difícil do que a que durou 48 anos”. Recordou ainda figuras como Seiça Neves, Costa e Melo, Mário Sacramento e João Sarabando e deixou uma palavra de admiração a Vale Guimarães, que era governador civil na altura do congresso: “Quando concorri pela primeira vez à Presidência da República, ele foi o meu mandatário no distrito de Aveiro”.
Figuras “de referência”
No sábado, entre a assistência desta iniciativa do Governo Civil, estava António Rocha Andrade, como estivera há 40 anos. “Tinha 27 anos em 1969. Não tínhamos a consciência que os jovens de 27 anos, agora, têm. Basta pensar que nunca tínhamos saído do país, ou que, uns anos antes, em toda a Universidade de Coimbra, havia duas estudantes que usavam calças!”, recorda o advogado e vereador da Câmara Municipal de Aveiro. “O Congresso, para nós, jovens, significava ouvir os grandes vultos como Salgado Zenha e Mário Soares e outros oradores de eleição. Era uma oportunidade para ouvir de viva voz o que só se ouvia e dizia clandestinamente”. Rocha Andrade participaria a seguir no 3.º Congresso: “O 2.º e o 3.º são manifestações diferentes, até pela sua localização. O 3.º, no Cinema Avenida [Av. Lourenço Peixinho] corresponde a uma maior abertura e participação popular. Este, no Aveirense, é algo mais discreto, de reflexão, havia menos juventude e mais gente de referência. O terceiro é mais de espectáculo”.
Em Aveiro “sempre sopraram ventos de liberdade”, afirmou Filipe Neto Brandão. Mas por uns dias, em 1957, 1969 e 1973, quando se falou abertamente de República e democracia, os ventos foram mais fortes.
Jorge Pires Ferreira
4º Congresso?
Desafio a que se faça um 4.º Congresso – tarefa importante, mas facilitada. Desta vez, contrariamente às outras três, não será necessário pedir autorização ao governador civil.
Filipe Neto Brandão, governador Civil de Aveiro
Dívida
A sociedade actual deve muito ao congresso que celebramos. O II Congresso deu uma imagem de energia num corpo moribundo de uma época moribunda.
Élio Maia, presidente da Câmara Municipal de Aveiro
Qualidade
Em 2010 celebraremos o que devemos à República e questionaremos a qualidade da vida democrática. Queremos procurar caminhos para uma República mais moderna, mais eficiente e mais democrática.
Artur Santos Silva, presidente da Comissão para as comemorações dos 10 anos da República
Herança das Luzes
Aveiro é sinónimo de democracia. A celebração da República representa “uma prática constante para todos quantos amam a herança das Luzes e os valores perenes da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade.
Rui Pereira, ministro da Administração Interna
