Há jornais da igreja desligados do mundo real

“As religiões e a Paz” A paz é construída a partir da liberdade, da justiça e do amor, afirmou D. Manuel Falcão, Bispo Emérito de Beja e membro da Comissão Episcopal das Comunicações Sociais, no encerramento das Jornadas que se realizaram em Fátima, nos dias 18 e 19, sob o tema “As Religiões e a Paz”. A organização foi do Secretariado Nacional responsável pelo sector dos média ligados à Igreja Católica.

D. Manuel Falcão referiu que a comunicação social é mais sensível às desgraças e menos às realidades positivas da vida, nomeadamente “aos exemplos de dedicação ao serviço dos outros”, tendo sublinhado que é preciso “não perder de vista os critérios do Evangelho”.

Ao falar sobre guerra e paz na comunicação social, o director do Diário do Minho, padre João Aguiar, alertou os participantes para a grande realidade de que “a violência não abandona os média porque também não abandona o mundo”. E sobre o comportamento dos jornais da Igreja, quantas vezes desligados do mundo real, ironizou que em muitos se escreve mais sobre Santa Bárbara e S. Francisco do que sobre a guerra e a pedofilia dos nossos dias.

Ao defender que a paz plena não é o simples silêncio das armas e que a não violência é um conselho evangélico, como a obediência ou castidade, o padre João Aguiar frisou que os jornalistas cristãos não podem fechar os olhos à realidade, nunca esquecendo, porém, que têm de ser anunciadores da esperança, sem pactuarem com a violência e com o terrorismo.

Propôs ainda que os média cristãos passem a informar, a formar e a divertir, sem deixarem de animar a comunidade para os valores cristãos que a enformam, sem nunca, porém, hipotecarem a sua identidade.

“O que a Igreja tem para propor

é a experiência de Jesus,

vivida em termos pessoais

e comunitários”

Num outro momento das Jornadas, o padre Peter Stilwell, director da Faculdade de Teologia da UCP, convidou os jornalistas a procurarem conhecer melhor as diversas tradições religiosas e a perceber como cada uma lidou com a conflitualidade latente no coração da pessoa. Disse que “há traços de violência e dureza nos textos sagrados, porque as religiões têm a ver com o ser humano”.

Por sua vez, D. Manuel Clemente, Bispo Auxiliar de Lisboa, apelou aos trabalhadores católicos da comunicação social para que passem a encarar a sua presença no mundo como cristãos, “como forma de superar o fundamentalismo político-religioso”. Afirmou que “as sociedades que se fecham à transcendência morrem”, ao mesmo tempo que criticou as formas de religiosidade “totais e totalitárias que não distinguem o homem da natureza”.

O contributo do cristianismo num Estado não-confessional passa, segundo D. Manuel Clemente, por oferecer a ajuda das comunidades crentes na construção de uma sociedade melhor. “O que a Igreja tem para propor é a experiência de Jesus, vivida em termos pessoais e comunitários”, disse.

Entretanto, foi anunciado no final das Jornadas que os Bispos do Centro vão organizar um encontro, a ter lugar em Fátima, nos dias 23 e 24 de Outubro, numa perspectiva de contribuir para a formação de quantos trabalham nos órgãos de comunicação social ligados às suas dioceses, estando garantido o contributo de especialistas em diversas matérias.

Espera-se que todos os participantes venham a contribuir para o rejuvenescimento dos jornais em que estão empenhados.