Há menos trabalho. O posto de trabalho pode estar em perigo. E há quem trabalhe mais e ganhe menos. Movimentos cristãos ligados ao mundo do trabalho promoveram um encontro para ouvir outros trabalhadores sobre o panorama laboral
Testemunho 1. “O meu filho trabalhava por conta própria na construção civil, mas ninguém lhe pagava. Teve de emigrar para a Suíça”.
Testemunho 2. “Na empresa onde trabalho, o subsídio de férias chegou com atraso. Há máquinas que estão paradas por diminuição de encomendas. Trabalhamos a 50 por cento. Tem havido dispensas, a começar pelos mais velhos”.
Testemunho 3. “Na minha empresa, há reduções nos contratos a prazo e no trabalho temporário. O grupo tem outras empresas no país e numa delas houve uma redução de 50 por cento do pessoal. A empresa exporta muito, mas os mercados exteriores estão em contracção. E há uma grande dificuldade nos recebimentos. Estou lá há quase três décadas e nunca houve ordenados em atraso. E se alguém é despedido, paga-se a indemnização e tudo aquilo a que têm direito. Mas nota-se que há apreensão nos empregados. E também um espírito de «vamos dar o nosso melhor»”.
Estes são apenas três testemunhos das duas dezenas que a LOC-MTC (Liga dos Operários Católicos – Movimento dos Trabalhadores Cristãos) da Diocese de Aveiro quis ouvir, tendo convidado colaboradores das empresas de região de Aveiro e também alguns desempregados para uma sessão que decorreu no Centro Universitário, na noite de 27 de Fevereiro.
No meio do panorama laboral cinzento, houve quem dissesse que as suas empresas estão a admitir pessoal. Uma do ramo alimentar, outra do ramo da celulose, estão a contratar pessoas. Mas o tom geral dos testemunhos foi de apreensão. A crise está instalada e poucos lhe são imunes – o emprego é um bem raro. E alertou-se para os empresários menos escrupulosos. Há alguns que se aproveitam da crise. Despedem para contratar colaboradores com salários mais baixos.
Impotência perante a crise
Do encontro sobressaiu que os empregados têm consciência de que a crise ultrapassa os poderes das instâncias superiores. Empresa e Estado são impotentes para lidar com as dificuldades. “As empresas não podem ter stocks. O tempo do produto armazenado acabou. Ter stock, com cargas e descargas, movimentos e manutenção, é perda de dinheiro. As empresas produzem em função dos planos, que há dez anos eram de meio ano, agora são de uma semana. Por isso, há subcontratos de 15 dias e empresas de trabalho temporário”, explica um funcionário de uma multinacional. Um empregado bancário acrescenta explicações que remetem para o modelo em que temos vivido. “Acabou-se o crédito a torto e a direito. Há uma grande preocupação com o crédito malparado. E por isso os bancos estão mais virados para a captação do dinheiro do que para emprestar” – o que tanto cria dificuldades para os empresários que querem investir como para o consumo, motor da economia. O mesmo bancário denunciou o encerramento de balcões que não dão lucro – mas cumprem um serviço social nas pequenas povoações – e os rendimentos fabulosos de alguns gestores. “Aqui não se notam os cortes”, afirmou. Um operário de uma fundição criticou a “hospedagem de gestores em hotéis” sem se saber “o que de útil fazem na empresa”, quando os colaboradores “saem da fábrica como se sai de uma mina: negros”. E vários referiram que há horas extras que não são pagas.
Igreja atenta
Realçou-se, por outro lado, a estratégia de algumas empresas para evitar o despedimento. Numa do sector automóvel, há muito se usa o banco de horas para “gerir as flutuações de actividade”. Ao mesmo tempo, há trabalhadores que entram em programas de formação devido à redução da actividade laboral.
A audição incidiu em colaboradores de empresas das proximidades de Aveiro e ninguém referiu despedimentos em massa ou falências – ao contrário do que tem acontecido no norte do distrito.
No final do encontro que foi moderado por Graciete Marques (coordenadora da LOC-MTC) e contou com a colaboração de outros movimentos de Igreja relacionados com o mundo do trabalho, o P.e Luís Barbosa (assistente da LOC-MTC) destacou a importância da sessão “para tomar consciência dos problemas” e sublinhou que estas questões são “preocupação da Igreja”, que na sua visão da sociedade defende o “pleno emprego”. O sacerdote notou que “a crise obriga a repensar o modelo de vida” – o que tanto se pode reflectir nas opções de consumo e de poupança, como na formação ao longo da vida e na prática da solidariedade.
Jorge Pires Ferreira
